A raridade de se assistir a uma coprodução entre Moçambique, Brasil e Portugal, ainda mais estrelada por Irene Ravache, garante a curiosidade em torno de Yvone Kane. O filme, dirigido pela portuguesa Margarida Cardoso, foi rodado em 2012 e lançado em 2015 em Portugal, tardando ainda dois anos para chegar às salas no Brasil.
O roteiro, também assinado por Margarida, desdobra-se em várias camadas, que exploram vertentes sobre identidade e também os descaminhos do colonialismo. Filmado em Moçambique, o filme, no entanto, não assume esse país como cenário, descrevendo-o como um país africano não identificado. É nele que vive a médica Sara (Irene Ravache), portuguesa que abraçou a revolução marxista e a causa da independência da nação em que se radicou, permanecendo nela depois que a maioria de seus compatriotas partiu de volta para Portugal.
Vêm visitar Sara sua filha, Rita (Beatriz Batarda), e o genro, João (Gonçalo Waddington) – que há pouco perderam sua filha num acidente. A relação entre mãe e filha, crucial dentro da história, é fria, distanciada, cheia de mal-entendidos. O primeiro deles, o fato de que a mãe, optando por permanecer na África, mandou de volta a Portugal os dois filhos, para que pudessem estudar – o que foi sentido por eles como um abandono.
A maternidade, para Sara, foi exercida de outro modo através do apadrinhamento de um menino, órfão na guerra da independência, Eduardo (Mário Mabjaia) – e que agora, adolescente, está lhe causando alguns problemas. O relacionamento entre Sara e Eduardo torna-se, aliás, um dos signos de outra relação problemática, entre os europeus colonizadores e os africanos, expondo as entranhas de um processo que, mesmo em situações aparentemente protetoras dos últimos, resultam em seu prejuízo, pelo caráter mesmo de sua impossibilidade.
Em busca da própria identidade, abalada pela perda da filha, Rita começa a investigar a história de Yvone Kane (Mina Andala), uma heroína revolucionária do processo de independência que sofreu morte misteriosa. Ao seguir as pistas de sua trajetória, Rita encontra as pegadas de outros equívocos históricos, estes em torno do desvirtuamento da pureza inicial dos ideais revolucionários.
A maneira descarnada como a diretora opta por retratar as emoções de seus personagens é, por vezes, um tanto exasperante – porque excessiva. É sempre saudável, é certo, fugir da pieguice em face de emoções tão extremas quanto as vivenciadas por Sara – que enfrenta ainda uma grave doença – e Rita. Mas o filme acaba por ressentir-se de uma certa mão pesada neste esvaziamento do afeto destas relações, impondo-lhes uma contenção, um fatalismo, que, por vezes, são pouco credíveis.
