Depois de viver 10 anos com Joachim, fotógrafo famoso e mais velho, Paula é abandonada repentinamente por ele. Ela se enfurece, mas afinal tem que procurar reconstruir a vida, sem ter estudo, contatos pessoais ou familiares para ajudar. Ela leva consigo a gata do ex- e procura trabalho e moradia. Na Reserva Imovision.
- Por Neusa Barbosa
- 11/12/2017
- Tempo de leitura 2 minutos
Longa de estreia da diretora Léonor Serraille, vencedor do prêmio Caméra d’Or no Festival de Cannes 2017, Jovem Mulher se constitui como um documento de identidade da protagonista, Paula (Laetitia Dosch).
Mulher de 31 anos, ela acaba de viver dez com o fotógrafo Joachim Deloche (Grégoire Monasaingeon), homem famoso, mais velho e que definiu as escolhas e a sensibilidade de Paula. Dono das vontades do casal, ele agora decidiu que Paula, que acaba de voltar de um longo tempo longe de Paris, deve seguir seu próprio rumo.
A história começa com este choque da protagonista diante do abandono, ao qual ela reage com fúria inclusive física, detonando a porta do apartamento de Joachim, mas ferindo-se ela própria. Ela acaba no hospital, desfiando sua verborragia num jovem médico, que permite que tomemos contato com um pouco de seu drama. Na verdade, ela nada mais tem de seu do que essa energia desordenada, que em algum momento ela terá que empunhar em favor de sua nova vida.
Ela está só, desesperadamente só. E, em seu desamparo, costuma, com sua falta de tato, afastar aliados, como a amiga (Marie Rémond) que aceita acolhê-la por uma noite mas finalmente acaba expulsando-a por comentários impróprios de Paula – que agora anda por todo lado agarrada à gata pertencente ao ex-, que ela levou.
Sustentando a câmera que quase nunca a abandona, Laetitia Dosch injeta dignidade nesta jovem mulher com quem nem sempre é fácil simpatizar, empurrada sem preparo para um salto numa vida adulta independente que ela tem dificuldade de estruturar. Para começar, ela não tem uma profissão. Seu único parente, a mãe (Nathalie Richard), é, por algum motivo, a última pessoa a quem ela quer procurar.
Autora também do roteiro (com colaborações de Clémence Carré e Bastien Daret) e dos diálogos, a diretora cria um filme com tal naturalidade que parece improvisado, vivido diante das câmeras – mas que é, bem ao contrário, construído minuciosamente para explorar, por dentro, as contradições de uma mulher em desvantagem, disposta a não se entregar e sem nenhuma tese a defender. Paula não é nenhuma intelectual e está fora dos ambientes sofisticados e protegidos onde reina seu ex-, nos quais ela circulava apenas como um apêndice dele.
Sem julgar sua protagonista impulsiva, o filme explora os altos e baixos de sua convivência com outras pessoas, como as colegas numa loja de lingerie, emprego que ela divide com ser babá de uma menina difícil de contentar (Lila-Rose Gilberti). Um inesperado amigo é Ousmane (Souleymane Seye Ndiaye), o segurança da loja, com quem, para variar, o relacionamento começou cheio de equívocos. Paula é tudo, menos uma pessoa em linha reta. E com isso, afinal, se pode realmente simpatizar.
