07/07/2026
Drama

Corpo e alma

Mária e Endre trabalham num abatedouro, mas mal se conhecem. A investigação de um roubo no local, porém, os aproximará quando descobrem que, à noite, partilham exatamente o mesmo sonho. Na Mubi.

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Ganhador de quatro prêmios no Festival de Berlim/2017 (entre eles, o principal, o Urso de Ouro), o húngaro Corpo e alma é um filme que parte de uma premissa metafísica para tentar encontrar um caminho materialista em sua investigação dos personagens.
 
Mária (Alexandra Borbély) e Endre (Géza Morcsányi) trabalham num matadouro – um cenário que não deixará de ser explorado – e partilham do mesmo sonho quando dormem, envolvendo neve e cervos. Eles não sabem disso, até que um roubo ocorre no local e todos os funcionários passam por uma avaliação psicológica, sendo que uma das perguntas envolve os sonhos da noite anterior. Quando os dois personagens, que mal se conhecem, relatam a mesma coisa à psicóloga (Réka Tenki) em suas entrevistas, ela acredita que lhe estão pregando uma peça. Os dois, naturalmente, espantam-se com a descoberta.
 
O sonho em comum é uma maneira de cada personagem entrar na vida do outro. Mária é calada, retraída, repleta de silêncios e solidões. Começou a trabalhar na inspeção sanitária do matadouro há pouco, e não faz questão de ficar amiga de ninguém. Ainda assim, Endre, que é diretor financeiro e tem um dos braços paralisado, aproxima-se dela, puxa conversa, tenta enturmá-la, sem sucesso. Até que descobrem sobre o sonho que partilham. Essa é a desculpa perfeita para se tornarem mais próximos – até porque ficam suficientemente curiosos para saber o que está acontecendo.
 
A roteirista e diretora Ildikó Enyedi parte, então, para uma investigação entre o metafísico e o material, entre o corpo e a alma, a crueldade e o sublime. Os animais – tanto aqueles que são abatidos na frente da câmera quanto os cervos gigantes e, ao mesmo tempo, delicados dos sonhos – tornam-se figuras mediadoras dessas transições – às vezes, um tanto óbvias, mas sempre muito bem pautadas nas interpretações da dupla central.
 
São a atriz e o ator, aliás, os responsáveis por manter o filme em pé. Enyedi, às vezes, pesa a mão em seus polos – tanto o do cruel (a cena da matança registrada em detalhes de maneira documental de um bovino era realmente necessária?) quanto o sublime – e também nos diversos gêneros em que o filme transita, indo desde um drama social até a comédia romântica, passando pelo melodrama. Alguns deles não são muito bem resolvidos, especialmente na reta final. Os personagens poderiam se transformar numa coleção de esquisitices, especialmente Mária, mas Borbély e Morcsányi são capazes de injetar a humanidade de que as duas figuras tanto necessitam, a ponto de tornar crível um relacionamento que poderia facilmente cair no bizarro.
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