Diretora de curtas (Dalva) e montadora (Vermelho Russo), Caroline Leone estreia na direção com Pela janela, que ganhou o prêmio da Crítica na Seção Bright Future (que destaca jovens cineastas promissores) do Festival de Roterdã de 2017. O filme tem como protagonista Rosália (Magali Biff), uma mulher de mais de 60 anos que precisa repensar sua vida depois de perder o emprego numa fábrica de reatores.
O longa é um road movie e, como tal, o destino pouco importa; a jornada (que se confundirá com a de sua protagonista) é mais forte do que o destino. Rosália cai numa depressão depois de dar metade de sua vida à fábrica de onde foi dispensada sem qualquer cerimônia. Seu irmão (Cacá Amaral), motorista de uma família rica, irá de carro para a Argentina, onde entregará o veículo para a filha do patrão. Com receio de deixar a irmã solitária, acaba por convencê-la a ir com ele.
Rosália vê o mundo pela janela do carro. A viagem é longa, mas com alguma beleza, que talvez possa espantar a sua melancolia. Muitas árvores, muito asfalto, algumas paradas em hotéis pequenos para passar a noite. Ela e o irmão, Zé, conversam de vez em quando, e a primeira grande parada é nas Cataratas do Iguaçu – uma verdadeira força da natureza, que pode despertar a energia adormecida da protagonista.
Caroline, que também assina o roteiro, cria um longa de tramas interiores, impulsionado pelos quilômetros que avançam na estrada. Passam a fronteira e Rosália nem percebe: “É tudo igual!”. É tudo igual, até que deixa de ser. Assim como na vida dela. O filme é contido em seu tom e suas interpretações, o que gera uma potência sutil quase descomunal.
A diretora sabe extrair beleza da dureza da vida, que se mostra repleta de possibilidades. Com pouco mais de 35 anos, Caroline é capaz de investigar com precisão a vida interior de uma dupla de personagens com quase o dobro de sua idade. Mas nada disso funcionaria se não fossem as inspiradas interpretações de Magali e Amaral. É na simplicidade aparente de seus personagens que eles encontram um volume ensurdecedor de quem precisa gritar para não explodir – mesmo que esse grito jamais seja verbalizado.
