Se existe a expressão comfort food, deveria existir também comfort cinema – aquele que dá ao público exatamente aquilo que espera, da maneira exatamente como se espera. Liam Neeson seria o astro máximo do comfort cinema de ação com suas parcerias com o cineasta catalão Jaume Collet-Serra – que já rendeu três filmes, Desconhecido (2011), Sem Escalas (2014), Noite sem fim (2015) e, agora, O Passageiro. O ator norte-irlandês se reencontrou como a figura do homem comum que, por força das circunstâncias, é obrigado a tornar-se um herói relutante.
Do alto dos seus 65 anos, Neeson – que já foi Oscar Schindler e o revolucionário irlandês Michael Collins – transmite segurança, confiança, e isso o coloca em uma posição de vantagem diante de pirralhos aspirantes a heróis de ação que protagonizam filmes do gênero, anualmente interessados em exibir uma bela figura esculpida em academia. Com quase 2 metros de altura, ele tem o perfil do pai de família que faz qualquer um se sentir seguro perto dele.
Em O Passageiro, ele é, novamente, como não poderia deixar de ser, um homem comum, marido devotado e um pai que ajuda seu filho na escola – ele lê os romances clássicos e faz um resumo para o garoto. Neeson, que interpreta Michael MacCauley, só consegue fazer isso porque todos os dias passa horas no trem a caminho do trabalho em Nova York, numa empresa de seguros.
No dia em que é mandado embora, sua vida sai dos trilhos. Sem coragem para contar para a sua mulher (Elizabeth McGovern) por telefone, ele mata o tempo em Nova York e se reencontra com um antigo amigo (Patrick Wilson), do tempo em que trabalhava na polícia. No horário de costume, pega o trem para casa e segue sua rotina, trocando algumas palavras com um conhecido (Jonathan Banks), até que, entre uma estação e outra, uma desconhecida (Vera Farmiga, maquiavélica e fria como nunca) se aproxima dele e faz uma proposta que ele não pode recusar.
Ele tem de encontrar uma pessoa que está transportando algo que interessa a ela. A mulher dá umas poucas pistas, mas ele não tem como dizer não, pois se o fizer a vida dos demais passageiros e da família dele estará em risco. A partir daí, o filme é uma trama acelerada e sem pé ou cabeça sobre trilhos, mais interessada em acrobacias visuais do que personagens. Mas isso, aqui, realmente não importa.
O que Collet-Serra tem a oferecer é cinema de ação em sua forma mais pura – é Velozes e furiosos dentro de um trem. Ajuda muito, é claro, o fato de que em cena tem-se Neeson ao invés de Vim Diesel, mas o princípio é o mesmo: cinema de correria e perseguições, tiros e pancadas. O resultado é um cinema tecnicamente exibicionista, num bom sentido, que não exige muito de seu público e, em troca, oferece diversão.
