Ficção e vida real se entrelaçam na tessitura de Stromboli, o filme de 1950 que marca a primeira parceria profissional entre o diretor italiano Roberto Rossellini e a atriz sueca Ingrid Bergman, que depois se tornaria sua mulher.
As marcas mais nítidas do neorrealismo, a profissão de fé de Rossellini, estão lá, na tela, a partir da pequena ilha vulcânica do norte da Sicília que empresta sua natureza rude como cenário para a história. Ali há mesmo um vulcão ativo, o Stromboli, que paira sobre um pequeno vilarejo, cuja sobrevivência depende dos caprichos de sua instável natureza.
A metáfora do vulcão que desarranja as vidas dos homens injeta-se na história de Karen (Ingrid Bergman), lituana que escolhe deixar um campo de refugiados, após a II Guerra, para casar-se com Antonio (Mario Vitale), soldado que está retornando à vida de pescador em Stromboli.
A inadequação da bela moça, urbana e estrangeira, na aldeia meridional é visível desde o primeiro minuto, em que ela deixa cair sobre esta natureza precária seu olhar desiludido. É nítido que Karen nunca pertencerá a este mundo primitivo, onde uma mulher deve recolher-se à sua modéstia e invisibilidade, dentro da ordem patriarcal que permanece imutável há séculos, com a complacência conformada das próprias mulheres locais.
A personalidade de Karen, no entanto, é marcada pelo inconformismo, ainda nos momentos em que ela é apenas espontânea – como quando entra no mar com as crianças caçando siris e polvos, despertando a maledicência dos moradores que observam. Mais ainda quando se arrisca a levar à única mulher do povoado que tem uma máquina de costura o tecido para fazer-lhe um vestido, já que esta é tida como a prostituta do lugar.
O neorrealismo entra também na própria composição do elenco, que inclui os estreantes Mario Vitale, Renzo Cesana (o padre, cuja carreira prosseguiu até os anos 1970) e Mario Sponzo (o homem do farol). Mais ainda, nas cenas naturalistas mostrando a vida dos pescadores locais, como a violenta pesca do atum – mais uma demonstração da rudeza da vida do lugar a agredir a sensibilidade diversa de Karen.
Nesta perseguição à verdade da vida diante da câmera, não faltaram perigos à própria estrela sueca nas sequências em que ela caminha no alto das montanhas, próxima aos vapores e à poeira emanados do próprio vulcão.
É neste choque entre a sensibilidade ferida de sua protagonista e a realidade bruta ao seu redor que o filme compõe seu mosaico. O filme reflete um momento de transição no relacionamento entre a atriz e o diretor, que vinham de se conhecer e apaixonar há pouco, protagonizando um dos maiores escândalos midiáticos da época, visto que os dois eram casados ao se encontrarem – Rossellini, com Anna Magnani, que deveria ter estrelado este filme e acabou protagonizando outro, Vulcano, dirigido pelo alemão William Dieterle, filmado nas proximidades e com trama em muitos aspectos semelhante. Foi a resposta deste outro vulcão, La Magnani, com seu orgulho barbaramente ferido por este abandono. Rossellini e Ingrid fariam ainda outros cinco filmes juntos, tendo três filhos, inclusive a também atriz Isabella Rossellini.
