Em sua primeira fala em A câmera de Claire, Isabelle Huppert diz: “Essa é a minha primeira vez em Cannes”. É um prato cheio para os cinéfilos, que sabem que Huppert há anos não perde um festival. Sua personagem, Claire, no entanto, não é do mundo do cinema e está na cidade badalada acompanhando uma amiga cineasta. Essa piscadela para o público do diretor e roteirista Hong Sang-Soo não é a única no filme. Outra referência é a presença de Manhee, interpretada por Kim Min-hee, atriz de diversos filmes do cineasta.
A câmera de Claire começa com a demissão de Manhee, durante o festival, por sua chefe Yanghye Nam (Chang Mi-hee), sob a alegação de que ela é falsa. A moça trabalhava em uma distribuidora de filmes e, saberemos mais tarde, teve um caso com um diretor, So (Jung Jin-young). A cena da demissão, num café, é repleta de formalidade, com senso de humor involuntário (ao menos para o público ocidental), terminando com a demitida pedindo para fazer uma selfie com a sua, agora, ex-chefe. É ligeiramente absurdo e constrangedor.
Depois disso, Claire entra em cena e conhece casualmente o diretor. Ela desconfia de que ele é um artista e, ao descobrir que é diretor de cinema, com um filme em competição no festival, comenta que escreve poesias e faz fotografias. E diz, apontando para a câmera em cima da mesa: “A única maneira de mudar as coisas é observando-as devagar”.
O filme é construído a partir de encontros, desencontros e coincidências, marcados por diálogos que parecem improvisados. Tudo a ver com o cinema de Eric Rohmer – sempre uma referência na obra de Hong. Em seus filmes, há sempre algo de mágico, que rompe com o realismo. Aqui isso é representado pela capacidade improvável de Claire encontrar as pessoas certas e, sem saber, acaba desfazendo um erro de julgamento entre o trio de coreanos.
Rodado durante o Festival de Cannes de 2016, o filme está longe do glamour do Palais du Cinema. Forma quase um tríptico com Na praia à noite sozinha e O dia seguinte – é uma trilogia sobre decepções, não apenas amorosas, mas também entre amigos e conhecidos. Os três filmes foram rodados em períodos próximos e lançados com pequenos intervalos.
A fotografia que captura um momento da realidade, que deixa de ser real ao ser registrado, é uma metáfora eficiente para uma história que investiga a sempre turbulenta relação entre arte e vida. “Se eu tiro uma foto sua, você não é mais a mesma pessoa”, explica Claire, para So e Yanghye. As polaroides da protagonista mudam a vida de seus conhecidos e, na imagem congelada, o momento capturado é capaz de realocar eventos do passado.
