O novo filme do diretor tunisiano Mohamed Ben Attia foi uma das boas atrações da Quinzena dos Realizadores em Cannes 2018. Tal como seu filme anterior, A Amante (2016), delineia um panorama complexo das relações familiares e do contexto social de uma Tunísia que se moderniza ao mesmo tempo que não se mantém imune às dramáticas questões políticas da região.
Em Meu Querido Filho, o foco recai sobre uma família de classe média. O pai, Riadh (Mohamed Dhrif), é um veterano operador de guindaste portuário que dedica todos os seus sonhos ao único filho, Sami (Zakaria Ben Ayyed). Ele e a mulher, Nazli (Mouna Mejri), só têm olhos para este rapazinho, que está prestes a realizar os exames finais do ensino médio.
Sami é um jovem estudioso e normal, que só causa preocupação aos pais no momento por conta de uma persistente enxaqueca – motivo pelo qual o pai o leva, a seu pedido, a um psiquiatra.
Ainda assim, o horizonte imediato parece tranquilo para a família. Riadh pensa em aposentar-se em breve, guardando dinheiro para mandar o filho cursar uma universidade no exterior, quem sabe no Canadá. Mas, um dia, Sami desaparece misteriosamente, levando todas as suas roupas e o computador. Sem aviso, sem deixar mensagem, nada. O desespero dos pais, que o procuram em todos os lugares, vai cedendo espaço à temível suspeita de que o rapaz juntou-se às fileiras do ISIS. Por isso, o pai decide viajar à Turquia, à procura de pistas de seu paradeiro.
O diretor e roteirista, que se baseou em relatos reais, é extremamente bem-sucedido em colocar os espectadores dentro da pele de Riadh, o retrato da aflição nesta busca, inclusive arriscada, de seu único filho, no submundo da cooptação para a radicalização política. Trata-se de um personagem extremamente complexo, com cujos esforços e sentimentos é muito fácil empatizar. O desaparecimento do filho demole, simplesmente, a estrutura básica de sua vida. Nem mesmo a mulher ocupa tanto espaço em seu coração, um dilema que se evidencia claramente num determinado momento do drama.
Patriarca típico, sobre Riadh recai também o peso da culpa – ele se atormenta pensando se o comportamento do filho resultou de alguma falha sua, por mais que ele não a consiga localizar nem compreender. O esfacelamento da família diante da opção duvidosa pela radicalização política do rapazinho de 17 anos traça um panorama sobre o drama de muitos pais, em vários países, em tempos recentes.
