18/07/2026
Infantil Animação

Tito e os pássaros

Num mundo tomado pelo medo, onde todos temem tudo o tempo todo, o garoto Tito tem um plano: resgatar uma máquina, abandonada por seu pai cientista, que pode curar as pessoas desse surto.

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O brasileiro Tito e os pássaros pode não ser exatamente um desenho para crianças muito pequenas, mas é uma animação que não poderia ser mais competente em seu comentário sobre o presente. Dirigido por Gustavo Steinberg, Gabriel Bitar e André Catoto, é um filme sobre a cultura do medo, situado numa sociedade tomada por isso de tal forma que seus cidadãos estão paralisados – em alguns casos, literalmente, quando as pessoas se tornam pedras.
 
O protagonista é o pequeno Tito (dublado por Pedro Henrique), um menino que se recusa a sentir medo, apesar de toda a apreensão de sua mãe, Rosa (Denise Fraga), especialmente depois que o pai do garoto, o cientista Rufus (Matheus Nachtergaele), sumiu. Ele desapareceu depois de sofrer um acidente enquanto construía uma máquina que lhe permitiria compreender a maneira como as aves se comunicam, ou, em suas palavras, “a língua dos pássaros”.
 
A cidade é tomada pelo medo, e as pessoas vivem num estado de pânico cada vez mais alimentado pela mídia. O medo se tornou uma espécie de capital, que alimenta negócios, gera lucros, em especial o imobiliário, na figura de um apresentador de televisão sensacionalista, Alaor Souza (Matheus Solano), que quer construir condomínios seguros e cobertos por uma cúpula, como o Jardim Redoma. Tito assume a máquina do pai e retoma o projeto, na esperança de livrar a humanidade daquilo que ficou conhecido como o “Surto”.
 
Há algo de O Menino e o mundo aqui, na ousadia de Tito e os pássaros se recusar a soluções simples ou uma narrativa óbvia, além de, esteticamente, fugir do padrão estabelecido para as animações, com cores vibrantes e personagens visualmente fofos. Aqui, é como se fosse possível perceber as pinceladas – embora, é claro, o longa conte com imagens digitais – na criação dos cenários e das figuras humanas. Há um tom soturno, mas não desprovido de humor.
 
O roteiro de Steinberg e Eduardo Benaim é sofisticado em sua simplicidade, em sua capacidade de levantar questões sobre o nosso momento. A cura para o Surto pode estar nas coisas mais simples da vida – como ouvir o cantar dos pássaros. A alegoria política para crianças é um feito raro no cinema de animação: um filme com mensagem, sem cair no didatismo, confiando na capacidade de compreensão e de questionamento de seu público – independente da idade. 
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