Nem por isso, o filme deixa de ter sequências primorosas, caso da representação teatral dentro das comemorações do aniversário, promovida por Emma, como dramaturga, e escalando seus dois primos menores, Milan (Milan Hatala) e Solal (Solal Ferreira Dayan), como atores, numa história de tempestade e naufrágio, protagonizada por marinheiros e sereias. É um belo momento de metalinguagem, um recurso que sofistica a história também nas intervenções do cineasta Romain filmando a própria família - aí há uma reflexão do autor sobre a natureza da própria arte da representação, nada de estranhar num diretor que já concorreu duas vezes no Festival de Berlim (A prece, 2018; Feux rouges, 2004) e uma em Cannes (Roberto Succo, 2001). Aqui, faltou afinar melhor o discurso e filtrar alguns exageros.
Uma família se reúne num dia de verão para comemorar o 70o aniversário de sua matriarca, Andréa. Estão todos na festa, menos a filha mais velha, Claire, que desapareceu há três anos. A súbita chegada dela abala o evento e o clã.
- Por Neusa Barbosa
- 04/12/2019
- Tempo de leitura 3 minutos
Com uma obra marcada pela atração peculiar por personagens marginais, o ator e diretor francês Cédric Kahn compõe em Feliz Aniversário um mergulho na instituição familiar, que ele perfura com oco na loucura de alguns de seus membros. Ou será a própria família a fábrica dessa mesma loucura?
Num roteiro assinado por ele mesmo - com participação dos parceiros habituais, Fanny Burdino e Samuel Doux -, Kahn abraça o papel de Vincent, o filho mais velho e controlador de uma família que está se reunindo na velha casa de campo para o aniversário da matriarca, Andréa (Catherine Deneuve). A preparação da festa transcorre numa pequena desordem a princípio amistosa, com as altercações de sempre entre Vincent e o irmão mais novo, Romain (Vincent Macaigne), um cineasta fracassado, e a sintonia perfeita entre o pai deles, Jean (Alain Arthur), e a nora, Marie (Laetitia Colombani), mulher de Vincent, dois seres pacíficos apegados à ordem e ao rigor gastronômico.
Com estes exércitos em campo, com seus papeis perfeitamente distribuídos, eis que um telefonema anuncia tempestade, com a chegada repentina de Claire (Emmanuelle Bercot), a irmã mais velha, sumida do círculo familiar há 3 anos. Claire é o elemento perturbador, que não deixará pedra sobre pedra na expectativa de um dia tranquilo, em que a aniversariante gostaria que não se falasse senão de coisas doces.
Claire chega com disposição guerreira, derramando suas mágoas passadas e disposta a um acerto de contas, financeiro inclusive, para que possa levar adiante a própria vida tumultuada. Seu primeiro ataque dá-se em torno da mesa de almoço, onde fica evidente o desconforto de sua filha, a adolescente Emma (Luana Bajrami), com seu próprio abandono pela mãe, e a estupefação de Rosita (Isabel Aimé González-Sola), a namorada argentina de Romain, com a alta temperatura das emoções represadas da família que ela acaba de conhecer.
Os confrontos se seguem ao longo do dia, desmontando a comemoração de Andréa, que procura colocar panos quentes e salvar a harmonia, pelo menos por algumas horas.
Cédric Kahn arma as situações familiares como um grande teatro, dando oportunidade para que praticamente todos os personagens expressem suas visões - surpreendentemente, bem menos chance é dada a Catherine Deneuve, que parece um tanto apagada e pouco presente no filme. Emmanuelle Bercot, em compensação, ganha o maior tempo e voltagem, num papel de mulher bem emocionalmente descontrolada que, eventualmente, desborda. O diretor/roteirista poderia ter equilibrado melhor esse jogo dramático, ainda mais tendo à mão atores tão bons.
