06/07/2026
Drama

Freud

Nos anos 1880, o jovem médico Sigmund Freud começa sua carreira num hospital em Viena. Interessado em pesquisas sobre hipnose para curar pacientes com distúrbios psicológicos, ele se envolve com Fleur Salomé, jovem húngara que tem supostos poderes mediúnicos. Na cidade, ocorre uma série de crimes sangrentos e misteriosos, investigados pelo comissário Kiss.

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A primeira temporada da série da Netflix estreou no começo da quarentena e tornou-se um dos sucessos desta época de confinamento social. Partindo de uma figura real e consagrada como o pai da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939), a série, dirigida e corroteirizada por Martin Kren, toma imensas liberdades - talvez demais - com ele. Por isso, de cara é preciso dizer: ninguém pense em aprender nada sobre Freud aqui, muito pelo contrário, já que há mais mentiras do que verdades. É ficção mesmo, embora incorpore aqui e ali alguns detalhes verídicos.
 
Não há, em princípio, nenhum problema em reimaginar vidas e fatos reais. A questão é o equilíbrio que se atinge ou não. E, claramente, Freud, a série, degringolou em vários momentos em sua mistura mal-construída entre as pesquisas do jovem Freud sobre hipnose, seu uso pessoal da cocaína (fato real) e episódios sobrenaturais envolvendo espiritismo e uma estranha seita húngara (totalmente ficção). Além disso, em alguns momentos, a violência gráfica esbarra no trash.
 
Não que tudo seja ruim. Na verdade, há muita qualidade técnica na fotografia e nos cenários desta Viena dos anos 1880, onde o jovem e recém-formado médico Sigmund Freud (Robert Finster) procura iniciar sua carreira. Também não é nada mau o elenco, encabeçado pelo citado Finster, a jovem Ella Rumpf, intérprete da centralíssima Fleur Salomé, e Georg Friedrich, na pele do comissário Alfred Kiss, possivelmente o personagem mais carismático da história. 
 
Um grande problema, logo no início do primeiro episódio (“Histeria”), é colocar o jovem médico como uma espécie de charlatão, tentando convencer sua governanta, Lenore (Brigitte Kren), a fingir estar hipnotizada numa sessão planejada para a escola de medicina. O desenrolar da situação leva a outros caminhos, mas a credibilidade, para mim, ficou comprometida de saída.
 
Freud, naqueles dias, é retratado como um jovem médico procurando investigar novos caminhos de cura para pacientes vitimados por vários tipos de distúrbios psíquicos, na época enfeixados pelo nome genérico de “histeria”. E aí entrava sua pesquisa da hipnose - aliás, fato real na vida do futuro pai da psicanálise.
 
O problema é quando Freud se envolve com Fleur, uma jovem húngara dotada de poderes mediúnicos, explorada por um misterioso casal de condes do mesmo país, os Szápáry (Anja Kling e Philipp Hochmair). A partir daí, Freud enreda-se numa trama liga à investigação de vários crimes sangrentos em Viena, além de uma forte atração por Fleur, tanto física quanto psiquicamente.
 
É uma pena que uma personagem tão rica em possibilidades quanto Fleur seja transformada numa espécie de pomba-gira tresloucada, sacudida tanto por suas visões quanto por suas traumáticas memórias de infância. E, o que é pior, essa mistura entre realidade e sobrenatural é muito confusa. 
 
O comissário Kiss, o personagem mais complexo da história, apresenta uma densidade maior, com seu passado traumático numa guerra na Bósnia, que levou à morte de seu filho e à sua obsessão pela vingança contra um oficial aristocrata, Georg von Lichtenberg (Lukas Miko).  Freud é um personagem muito mais inseguro, hesitante, não raro bizarro mesmo, absurdo. 

De todo modo, parece que a série pegou e tudo indica que poderá ter uma segunda temporada. Caso isso realmente aconteça, é de se torcer que tenha um pouco mais de capricho no desenho da personalidade de Freud e o deixe longe de tramoias sobrenaturais alopradas. Um pouco mais de humor e ironia ajudariam também. Nesta primeira temporada, os raros momentos mais leves pertencem às participações do médico e escritor Arthur Schnitzler (Noah Saavedra, protagonista de Egon Schiele - Morte e Donzela), outro personagem real e que realmente foi amigo de Freud e admirado por ele - embora nunca tenha participado das sequências rocambolescas imaginadas aqui. 

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