Animação adulta que teve sua première na seção Un Certain Regard de Cannes 2019, Os olhos de Cabul mantém uma total correspondência entre forma e conteúdo - no caso, a delicada técnica de animação manual, que guarda semelhança com a aquarela e extrai realismo poético de uma história dramática impregnada de paixão, repressão e política.
O ano é 1998, domínio Talibã no Afeganistão. É verão em Cabul, onde a vida de dois casais se intercala dramaticamente. De um lado, os jovens professores Zunaira (voz de Zita Hanrot) e Mohsen (Swann Harlaud), impedidos de continuar sua vida normal depois das imposições fundamentalistas do Talibã. Tudo é proibido: música, espetáculos, mangas arregaçadas acima dos cotovelos, mulheres circularem sem burcas na rua. Tudo isso e muito mais é crime, passível de punições, até morte.
Mohsen, um jovem progressista, se abala com uma reação sua diante do apedrejamento de uma mulher, acusada de devassidão - cena comum naqueles dias. Os desdobramentos deste incidente aproximam a vida do casal da de Atiq (Simon Abkarian), guarda da prisão que abriga as presas condenadas à morte, e sua mulher, Mussarat (Hiam Abbass), que está gravemente doente.
As diretoras, Zabou Breitman e Eléa Gobbé-Mévellec (esta, responsável pela animação), partiram de um romance de Yasmina Khadra - pseudônimo literário do escritor argelino Mohammed Moulessehoul - para compor um relato que desnuda os absurdos impostos a uma sociedade pelo o fanatismo religioso - e que atingem muito mais pesadamente as mulheres, no caso do Talibã. O roteiro, assinado pelas diretoras ao lado de Patricia Mortagne e Sébastien Tavel, desnuda, com clareza cristalina, o sufocamento de todos os indivíduos para que predomine o poder miliciano dos talibãs - que circulam pelas ruas armados e, hipocritamente, mantêm em seus QG tudo o que em público proíbem aos outros, bebidas, televisão e mulheres em trajes exímios.
Por conta desta procura de clareza e pungência, pode-se perdoar algum discreto tom de didatismo, que se insinua aqui e ali. Mas a história não perde o rumo, a contundência e sobretudo a oportunidade - ainda mais quando se leva em conta que, neste exato momento, os Talibãs estão a um passo de dividirem o poder no Afeganistão, conseguindo inclusive a desejada partida das tropas norte-americanas sem ter, na verdade, feito maiores concessões sobre sua ideologia.
