Tilda Swinton é uma atriz como uma viagem - ela sempre pode te levar a um lugar aonde você não espera chegar. Aliás, onde se vai chegar é o que menos se sabe neste filme curioso e cheio de energia do francês Erick Zonca - famoso pelo drama A Vida Sonhada dos Anjos, que concorreu à Palma de Ouro em Cannes em 1998 e conquistou um prêmio para suas atrizes, Élodie Bouchez e Natacha Régnier.
Imprevisível mesmo é a personagem da protagonista, Julia, uma alcoólatra lasciva, voraz e totalmente irresponsável. Seu projeto de vida é embebedar-se todas as noites, levando com ela um homem diferente a cada uma. De cara, não é o figurino de nenhuma heroína, nem pessoa para se gostar de imediato. Além do mais, ela é bocuda, desagradável, agressiva.
Por conta disso, ela tem apenas um amigo, Mitch (Saul Rubinek), a única pessoa que parece realmente tomar conta dela e tentar conduzi-la a um caminho mais sensato - começando pela pressão para que ela frequente as reuniões para dependentes químicos numa igreja.
A inadequação de Julia neste lugar, como no resto do mundo, é latente. Assim como outras pessoas ali, ela precisa de uma ajuda muito mais qualificada. Essas reuniões têm outro potencial de perigo - reúnem frequentadores ainda mais fragilizados e até delirantes. Uma delas é Elena (Kate del Castillo), que é vizinha de Julia, e vive obcecada pela ideia de sequestrar o próprio filho que, segundo ela, vive com o avô super-rico, que não a deixa aproximar-se do menino, cujo pai morreu.
Não é difícil pensar o que essas duas criaturas perdidas vão arrumar nessa trilha. Mas nem a imaginação mais doida pode prever os caminhos tresloucados que Julia irá percorrer quando se envolve nesta história, em que a figura central será o menino Tom (Aidan Gould). Para o garoto, por todas as razões possíveis, esta figura feminina será inesquecível.
Nem sempre a concatenação de todas as aventuras de Julia e Tom por estradas que passam pelos EUA e pelo México será a melhor possível. Em alguns momentos, sente-se igualmente uma quebra de ritmo num filme que dura quase 2h30. Mas é indiscutível que o ímã para manter-se ancorado/a à narrativa é sempre Tilda Swinton que, como um animal mutante, troca de pele, de estratégia, de tom, de mentira, visando alguma vantagem para uma vida como a sua, em que muito já foi desperdiçado - embora ela descubra um instinto de sobrevivência bem afiado, não raro diante de bandidos profissionais e violentos.
Sua relação com Tom, por sua vez, é um teste para o politicamente correto nos filmes com crianças e nas visões convencionais da maternidade, seja ela literal ou condicionada pelas circunstâncias. Neste sentido, é mais do que louvável a coragem do diretor Zonca na liberdade que concede à sua atriz, magnificamente escolhida, confiando com sabedoria em sua composição para extrair humanidade desta personagem única.
Não raro, o filme provoca aflição e coloca seus espectadores com o coração na boca, sendo expostos aos sustos e ao turbilhão de Julia - a quem o filme dá uma chance exemplar de iluminação numa das últimas sequências. Impossível mesmo é imaginar outra atriz melhor para este papel, o que nos leva a esquecer algumas incongruências do roteiro ou de ritmo. Ao final da jornada, nada disso importa, porque Tilda redime tudo, como a atriz magnífica que sempre é.
