Dois anos depois de ficar pronto e meia-dúzia de adiamentos depois, finalmente, Morte no Nilo chega aos cinemas – depois de baixar várias poeiras que cercam o filme, em especial as acusações de estupro, abuso e canibalismo que foram feitas contra Armie Hammer, um dos protagonistas do longa, dirigido por Kenneth Branagh e inspirado, é claro, no romance homônimo de Agatha Christie.
Ao final de Assassinato no Expresso Oriente, o famoso detetive belga Hercule Poirot (Branagh) recebe uma notícia: um crime aconteceu no Nilo. Certamente não se trata daquele que ocorre nesse filme, pois, quando acontece. o investigador já está no Egito. Era apenas um pequeno gancho divertido, com uma piscadela para o público de qual seria a próxima adaptação de Christie. Aqui, quanto menos se souber, melhor. Ou o extremo oposto: fã do romance, que sabe exatamente o que irá acontecer e quer ver tudo na tela.
O filme começa com um prólogo, na Primeira Guerra Mundial, que explica diversas coisas sobre Poirot, entre elas, o motivo de usar um bigode e a razão de ser um homem solitário. Corta para, anos depois, chegando ao Egito, onde ele reencontra seu amigo Bouc (Tom Bateman) e a mãe dele, Euphemia (Annette Bening), cujo passatempo preferido é pintar. É o rapaz também quem apresenta o belga a uma jovem herdeira bela e rica, Linnet Ridgeway (Gal Gadot), que está prestes a casar com o ex-namorado, Simon Doyle (Hammer), de sua melhor amiga, Jacqueline de Bellefort (Emma Mackey) - que, obviamente, não está nada contente com isso.
Como no filme anterior, Poirot, a vítima e o/a assassino/a estão enclausurados num ambiente fechado: no caso, um pequeno navio que percorre o Nilo, onde Linnet e Simon passam a lua-de-mel com amigos, parentes e o detetive, que também foi convidado. Não saber nada sobre a história implica não saber quem morrerá e, no caso deste filme, as possibilidades são grandes – todos e todas podem ser vítimas ou criminosos/as.
Entre as pessoas na embarcação, além do casal, Poirto, Bouc e sua mãe, também estão a tia de Lynnet, Marie Van Schuyler, e sua secretária, Bowers – interpretadas por dois ícones da comédia britânica, Jennifer Saunders e Dawn French – , o contador da empresa da herdeira, Katchadourian (Ali Fazal), o ex-namorado da jovem, Windlesham (Russell Brand), e uma cantora de jazz, Salome Otterbourne (Sophie Okonedo), e sua sobrinha, Rosalie (Letitia Wright). E também Jacqueline, que deu um jeito de se infiltrar na viagem. Nesse sentido, o filme introduz alguma representatividade ao mundo rico e branco de Christie, com duas personagens negras.
Depois que acontece o crime, obviamente Poirot usa sua inteligência e grande capacidade de observação. Como é comum em Christie e suas adaptações, muitas coisas escapam ao leitor/público, mas não ao detetive, o que, às vezes, torna as resoluções um tanto forçadas – o que nem é o caso aqui. A pessoa culpada e suas motivações são facilmente deduzíveis, portanto, a graça está mesmo em desvendar o modus operandi.
Como é de se esperar – tal qual em Expresso do Oriente – a direção de arte de época é caprichada, tudo é muito sóbrio, filmado numa maneira clássica, sem qualquer exibicionismo estético ou formal, em função de um suspense mesmo. Os personagens, por sua vez, não vão muito além das suas definições – a herdeira, o marido, a ex-amiga... –, e rasos, não gerando muito interesse. Sendo assim, o resultado é um tanto anódino.
