Em seu segundo longa de ficção como diretora, a gaúcha Ana Luiza Azevedo muda diametralmente o foco. Se no primeiro, Antes que o mundo acabe (2009), falava de um adolescente descobrindo o mundo e a vida, em Aos olhos de Ernesto, o protagonista é um homem de 78 anos está perdendo a visão, desgostoso com a vida sem rumo ou excitações depois da morte de sua mulher. A mudança vem na figura de uma jovem que sacode a sua vida, transformando-a radicalmente. O longa ganhou o Prêmio da crítica na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo de 2019.
Uma sinopse como essas faz parecer um filme que já se viu diversas vezes, mas Azevedo – trabalhando com um roteiro assinado por ela e Jorge Furtado, parceiro de diversas empreitadas – usa o suposto clichê em seu favor, como elemento de identificação do público com Ernesto (Jorge Bolani, de Whisky), um fotografo uruguaio que vive em Porto Alegre no mesmo apartamento há anos. O filho Ramiro (Julio Andrade), que mora em São Paulo, pensa em vender o imóvel a contragosto do pai.
Com uma carreira de mais de 30 anos, e experiência em diversas áreas, Ana Luiza Azevedo se firma como uma das diretoras mais interessantes trabalhando atualmente. Seus filmes são aquilo que convencionou chamar de “discretos”. Mas é nessa baixa voltagem, repleta de sutileza, que o mundo é descoberto e, ao final, com uma conclusão envernizada de otimismo, esse longa faz do mundo um lugar mais habitável e cheio de esperança.
Ernesto leva uma vida melancólica, mas pacata em sua rotina metódica, com conversas com o vizinho argentino Javier (Jorge D'Elía), com quem vive trocando farpas. O choque quando conhece a jovem Bia (Gabriela Poester) se dá de diversas maneiras, mas, especialmente, como é de se esperar, um choque de geração, de visão de mundo. A garota é fruto do presente. É curioso como a direção e a fotografia – assinada por Glauco Firpo – também se transformam na medida em que a garota muda a vida do protagonista.
Experiente diretora de curtas e também séries de televisão – ela é uma das criadoras da série Doce de Mãe – Ana Luiza Azevedo tem olhar curioso e terno, que acompanha seus personagens a uma distância segura, de modo a acompanhar suas ações sem interferir nelas. É raro como um diretor deixa seu filme tão livre e as figuras humanas para o habitar em sua simplicidade e humanidade mais profundas. O que une Ernesto e Bia é estarem vivos no mesmo momento no mesmo lugar.
Ambos vivem no Brasil do século XXI e suas vidas são evidentemente tocadas por isso, da mesma maneira que eles tocam o país. É por meio do cotidiano, dos fatos simples, dos encontros e desencontros que Aos olhos de Ernesto faz uma radiografia da classe média urbana de hoje. Bia leva seu amigo a um universo que ele desconhece – e o filme se abre a possibilidades quando o septuagenário vai à rua à noite. Disputas de ideologias políticas, sociais e culturais se apresentam na vida prática da dupla, na maneira como encaram as transformações do presente.
