06/07/2026
Drama

Mignonnes

Amy tem 11 anos e acabou de entrar numa nova escola. Sem amigos ou amigas, ela tenta se enturmar com um grupo de garotas que está se preparando para uma competição de dança.

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Poucos filmes despertaram tanto amor e ódio e foram capazes de unir o dois lados opostos do espectro político (por motivos errados, mas uniu) como o francês Mignonnes, que foi lançado na Netflix mundial depois de estrear no Festival de Sundance em janeiro passado. A crítica feita ao longa da francesa Maïmouna Doucouré é que sexualizava garotas de 11 anos de idade. Ora, um comentário como esse só poderia vir de alguém que não viu o longa (a campanha pelo boicote começou semanas antes da estreia) ou viu e não compreendeu (a campanha continua) que a proposta do longa exatamente criticar a sexualização de meninas, e mulheres, por consequência. A polêmica começou quando a própria Netflix lançou um cartaz equivocado – com meninas em poses libidinosas –, vendendo o filme como algo que ele não é.
 
É de se saber que Doucouré estava pisando num campo minado quando escreveu o filme. Num campo cujas minas são detonadas pela incompreensão, que o digam Vladimir Nabokov com seu Lolita, e Stanley Kubrick quando adaptou o livro num filme. Pode ser uma cegueira causada por ideologia que faz as pessoas verem na obra de arte exatamente – e apenas – aquilo que querem ver. Mignonnes está longe de ser uma obra-prima, tendo problemas como cinema, mas isso não é desculpa para o ataque virulento que o filme tem sofrido.
 
A protagonista é Amy (Fathia Youssouf), de uma família tradicional senegalesa vivendo na França, que não tem amigos nem amigas e precisa se adaptar à nova escola. Lá se interessa por um grupo de garotas da mesma idade que se preparam para uma competição de dança. No novo apartamento, um quarto luxuoso é mantido fechado a chave à espera do pai que voltará - ele foi para o Senegal casar-se com sua segunda mulher.
 
Cada vez mais solitária, a menina busca fazer amizade com as outras meninas e entrar na competição com elas; ensaiar os passos da dança é a única forma de se enturmar. Todas estão na faixa de idade de uma grande incerteza identitária e emocional: não são mais crianças (ao menos, não querem ser vistas como tal) mas também não são adolescentes. A união com seus pares é o que ajuda a atravessar esse período de incompreensão, rumo a outro de maior incompreensão ainda.
 
Amy rouba o celular de um primo e começa a aventurar-se nas redes sociais, encontrando no Youtube seu objeto de fascinação, onde, mais do que assistir, estuda vídeos de mulheres em danças sensuais e provocativas. Sem saber ao certo o que é aquilo, ela se fecha no banheiro e ensaia seus próprios movimentos, Quando uma das garotas é obrigada a sair do grupo, a protagonista entra em seu lugar, pronta para criar novos passos de dança inspirados naqueles que viu na internet.
 
À medida que o concurso de dança se aproxima, o filme perde um pouco de sua energia, a narrativa fica incerta. A questão está na disputa entre valores tradicionais das culturas africanas e os mais liberais da Europa ocidental. O vestido que Amy tem de usar para o casamento do pai é o contraponto às roupas que ela está acostumada a vestir.
 
Mignonnes não termina com a mesma energia com que começa – embora a cena final seja linda –, mas tem a vantagem de abrir uma discussão sobre a imagem sexualizada de meninas cada vez mais jovens vendidas como uma mercadoria. É um filme bem intencionado e que está sofrendo rechaço exatamente por suas boas intenções. Em uma entrevista à Variety, a diretora Doucouré disse que as pessoas que condenam seu filme estão “lutando a mesma luta” que ela, mas é preciso que os detratores vejam e compreendam o filme, antes de, para usar uma palavra da moda, o cancelar.
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