Um melodrama marcado pela beleza e o patriarcalismo na Sicília, com forte acento em figuras femininas e uma piscada de olhos ao cinema clássico, marca a estreia em longas do diretor italiano Paolo Licata. O roteiro, assinado a quatro mãos por Licata e a escritora Caterina Fiorello, autora do romance em que se inspira, foi premiado no Festival de Taormina 2019.
Toda a história reflete o processo de amadurecimento da protagonista, Lucia (a promissora estreante Marta Castiglia). Em meados dos anos 1960, a garota, de 11 anos, é confiada à avó, Maria (Lucia Sardo), quando seus pais emigram para a França, em busca de trabalho e levando consigo apenas o filho menor. É uma jornada traumática para a menina que, fora a brusca separação da família, tem que lidar com uma avó rígida, analfabeta, não raro rude de uma forma que ela não consegue compreender.
O universo de Lucia é povoado praticamente apenas de figuras femininas. Fora a avó, ela tem apoios na tia, Franca (Loredana Marino), e na prima, Natalina (Nicoletta Cifariello), mais carinhosas e menos tensas. Muito controladora da menina, a avó a impede de aproximar-se de outra tia, Pina (Ileana Rigano), ou de sua filha, Rosamaria (Katia Greco), com quem ela mesma não fala há anos. O segredo deste rompimento será revelado mais adiante, desencadeando a situação dramática que dá sentido a toda esta mecânica familiar, intoxicada de relações patriarcais primitivas.
De maneira sensível, o diretor permite ao espectador compartilhar o olhar da menina solitária, quando ela passeia pelas redondezas de sua casa, em praias e numa gruta belíssima - paisagens de Favignana, nas ilhas Egadi, na parte ocidental da Sicília. Este ambiente, belo e selvagem, é uma metáfora da natureza que molda o caráter e o isolamento destes camponeses, atormentados por dramas como o desta avó endurecida e também de Rosamaria, apaixonada sem esperanças por um homem casado.
A personagem mais complexa é a avó Maria, interpretada com galhardia pela veterana atriz siciliana Lucia Sardo, vista como a mãe no drama Os Cem Passos, de Marco Tullio Giordana. Ela introduz nuances numa dureza de atitudes que, aos poucos, vai sendo decifrada, especialmente à medida que Lucia amadurece - não sem antes enfrentar um terrível trauma. A maneira como se lida com este episódio é cristalina para remeter ao coração selvagem da Sicilia, mas não só - traduz, mais do que tudo, a persistência de um machismo violento que costuma ficar impune.
A fidelidade à ambientação é favorecida num filme que, corajosamente, opta por manter o dialeto siciliano em boa parte dos diálogos, recurso que foi facilitado pelo fato de que a maior parte do elenco é proveniente da mais bela ilha da Itália, assim como o diretor Licata.
