02/07/2026
Comédia dramática

Os Boas Vidas

No pós-guerra, numa cidadezinha provinciana na Itália, cinco amigos vivem os últimos dias da irresponsabilidade da juventude: Moraldo, Alberto, Fausto, Leopoldo e Riccardo. Quando a irmã de Moraldo, Sandra, aparece grávida de Fausto, todos este mundo começa a mudar.

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Segundo longa solo de Federico Fellini, Os Boas Vidas é o filme em que ele se afirma definitivamente como um autor, projetando um retrato de geração que seria muito celebrado e imitado - e não sem razão, ao traduzir com humor e uma ponta de melancolia os dilemas dos rapazes da província na Itália do pós-guerra. 
 
Co-autor do argumento e do roteiro, ao lado de uma dupla com a qual faria tantos belos filmes posteriores, Ennio Flaiano e Tullio Pinnelli, Fellini sabia muito bem do que estava falando, mas não porque fosse um dos “vitelloni” - um termo que ele emprestou do dialeto riminese, lugar onde ele nasceu, e que virou um neologismo de alcance mundial, assim como aconteceria, poucos anos depois, como “paparazzi”, tirado de A Doce Vida (1960). 
 
Aqui o diretor começava a mostrar o seu afiado instinto para detetar mudanças em curso, como a de seu país naqueles agitados anos 1950, e também o poder de sua criativa imaginação. Por uma questão de idade, ele nunca foi um desses rapazes de província vistos no filme, que passavam o dia ociosos na praça, percorrendo as ruas com suas brincadeiras, procurando escapar ao confronto com a idade adulta que já os espreitava. O jovem Federico, na verdade, era uma daquelas crianças de Rimini que observava com admiração esses garotos mais velhos, que aos seus olhos pareciam saber tanto da vida, dos prazeres e ter tanta liberdade, quando, na verdade, ainda estavam tão presos a todas as amarras da tradição e da família.
 
No enredo, um admirável quinteto abraça os conflitos de sua geração: Moraldo (Franco Interlenghi), o mais centrado e indiscutivelmente o alter ego do diretor; Alberto (Alberto Sordi), um mimado que vive com a mãe e a irmã; Fausto (Franco Fabrizi), leviano e conquistador que engravida a irmã de Moraldo, Sandra (Leonora Ruffo);  o tímido Leopoldo (Leopoldo Trieste), que sonha com uma carreira de dramaturgo; e o sonhador Riccardo (Riccardo Fellini, irmão de Federico).
 
Nenhum deles é heroi, nem grandiloquente. Cada um a seu modo, todos mesclam paixão, humor e irresponsabilidade para encarar as aventuras da juventude, intuindo que a província é estreita demais para abrigar sonhos. A dependência da família, que os domina com rédea curta, seus pequenos conflitos com uma moral não menos acanhada do que os limites de sua aldeia, tudo isso está pesando sobre eles de um modo que não pode mais ser adiado. Só Moraldo tem coragem para um outro caminho, assim como fez Fellini -  rumo a Roma.
 
A capacidade de fabular de Fellini, de criar mundos particulares onde a Itália e logo o resto do mundo se reconheceu começou aqui a trazer-lhe reconhecimento. Os Boas Vidas foi seu primeiro filme a ter uma distribuição internacional, acumulando prêmios como o Leão de Prata no Festival de Veneza 1953 e, cinco anos depois, a indicação ao Oscar de roteiro, ao lado de Flaiano e Pinnelli, além de vários outros e também do sucesso junto ao público. 
 
Com Os Boas Vidas, o riminense começava a escrever seu nome com letras douradas na história do cinema. Do filme, restam sequências que pertencem à memória de todo cinéfilo que se preze, a de Alberto Sordi dando uma banana aos trabalhadores numa estrada, para depois ser perseguido, com os amigos, pela infeliz brincadeira. Uma situação que Fellini, segundo um de seus biógrafos, Tullio Kezich, teria vivido na prática, ao lado do amigo de infância, Titta. Até que ponto a cena foi reinventada por sua delirante imaginação, jamais saberemos. A lenda venceu.
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