Diretor de curtas como Nascente (2005) e Trecho (2006) e do longa Girimunho - selecionado para a mostra Horizontes do Festival de Veneza 2011 -, o diretor mineiro Helvécio Marins Jr. compõe um cinema calejado nos tempos longos, nos ambientes delineados sem pressa, pontuados de ruídos ou silêncios. Assim ele realiza este seu segundo longa, Querência, novamente borrando a fronteira entre ficção e documentário para retratar a vida de vaqueiros do noroeste de Minas Gerais - a região onde ele fez todos os seus filmes e conhece de cor.
O filme teve sua première em Berlim, em 2019, fazendo depois um circuito de festivais internacionais e colhendo um prêmio em Jianjun, na Coreia do Sul.
Flui uma dinâmica de vida real no acompanhamento de conversas, rodeios e leilões que dão conta do cotidiano destes boiadeiros, descortinando um interior profundo do Brasil. Nem tudo é idílio, porém. Acaba de acontecer um roubo de gado numa das fazendas, o que abala profundamente a vida de Marcelo (Marcelo Di Souza).
Não há narração nem explicação, os acontecimentos se sucedem. Acompanha-se a vida acontecendo em sua rotina minimalista, cumulativa. Homens conversam, ouvindo radinho, moda de viola, contando “causos”, dividindo experiências. Poucas mulheres se vê, uma delas, a irmã de Marcelo que vem de visita e traz consigo recordações da infância, como a oração na hora de dormir que o pai de ambos nunca falhava em pronunciar. Entre as conversas, também se escreve poesia, que não fala só de sentimentos, inclui também o impeachment de Dilma Rousseff que, naquele momento, se desenrolava em Brasília.
O sonho de Marcelo é ser locutor de rodeios, uma expressão particular neste mundo em que a arte mais apreciada é a do laçador, que submete o animal ao domínio do homem com um misto de primitivismo e perícia. Mas a vida está mudando também por aqui, seja pelos roubos, seja pelo impeachment que fragmenta as instituições e reverbera em todos os cantos do país. Talvez seja necessário partir, deixar os amigos, seguir outra vida longe daqui. Querência, de várias maneiras, evoca a sensação de exílio que tem contaminado tantos brasileiros, tendo ficado ou partido, nestes tempos tão estranhos em que o país parece ter perdido o contato com qualquer forma de utopia e se volta para suas raízes à procura de respostas.
