18/07/2026
Drama

O Morro dos Ventos Uivantes [2011]

Ao encontrar o pequeno órfão Heathcliff sozinho nas ruas de Londres, o Sr Earnshaw traz o menino para sua casa, em Yorkshire, e o menino desenvolve uma forte amizade com a filha deste homem, Catherine, o que se tornará um amor complicado e doentio que acompanhará os dois pela vida toda.

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Poucas adaptações de clássicos literários conseguem ser tão transgressoras quanto a de Andrea Arnold para O Morro dos Ventos Uivantes, escrito por Emily Brontë, e publicado em 1847. Ao lado do diretor de fotografia Robbie Ryan, a diretora inglesa transforma a paisagem num elemento narrativo, praticamente tão opressor quanto a sociedade em que vivem Catherine Earnshaw e Heathcliff. Deixando de lado que há de mais melodramático no original, o filme se concentra no amor e na raiva que guiam as personagens.
 
O cenário quase sempre coberto por bruma parece mais um futuro apocalíptico do que a Inglaterra vitoriana. Deixando de lado a narrativa dentro da narrativa e a segunda geração de personagens do romance original, Arnold concentra-se na reação que une e separa Catherine (interpretada por Shannon Beer, na infância; e Kaya Scodelario, quando mais velha) e Heathcliff (Solomon Glave, e, depois, James Howson), e, ao contrário da maioria das adaptações, o filme coloca-os num mesmo patamar. São duas figuras oprimidas diante de uma sociedade que não se importa com mulheres e negros.
 
Heathcliff entra em cena como um garoto abandonado que o sr. Earnshaw (Paul Hilton) acolhe para viver em sua casa com seus filhos pequenos, Hindley (Lee Shaw) e Cathy, por quem o garoto logo se apega. Daí nasce um romance intempestivo, com idas e vindas, que irá durar por toda vida e, possivelmente, além da vida. A história de amor – que ganhou um novo público com as jovens leitoras de Crepúsculo, inspirado pelo romance de Brontë – é conhecida e não importa muito aqui como história de amor, e sim como a construção de sentimentos conflitantes que movem o par.
 
O realismo social que Arnold sempre emprega em seus filmes aqui encontra um novo enfoque: como o presente é uma reflexão (em todos sentidos) do passado. As protagonistas dos longas da diretora são jovens da classe operária em busca de seu lugar na sociedade – numa sociedade, contra a qual, aliás, elas precisam lutar para poder alcançar mais do que lhe é dado.
 
A fotografia de Ryan ganhou um prêmio de contribuição técnica no Festival de Veneza de 2011, e é mais do que merecido. A maneira como ele retrata a natureza acrescenta uma nova camada ao filme. É como se transitasse entre a amizade e a destruição. A névoa que encobre o romance de Cathy e Heathcliff é a mesma que os pode sufocar. As personagens, em muitos momentos, são como que destituídas de sua humanidade, transformadas em feras, inimigas da natureza. Arnold encontra um novo fôlego para um romance tão conhecido e faz de sua adaptação algo que parece inédito, feito antes mesmo de o livro existir.
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