05/07/2026
Drama

O Tigre Branco

Balram é de uma casta baixa, mas ambicioso. Após conseguir uma vaga como empregado numa família rica, ele começa a planejar sua ascensão. Baseado no premiado romance homônimo de Aravind Adiga.

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Num primeiro momento, um resumo de O Tigre Branco deve remeter a Quem quer ser um milionário? Garoto indiano pobre, de uma casta baixa, na Índia, escala a montanha a prosperidade e é bem sucedido. Mas, se o filme oscarizado de Danny Boyle era praticamente uma fantasia, o mais recente, assinado por Ramin Bahrani, tem um pé bem mais calcado na realidade, partindo do premiado romance de Aravind Adiga, com roteiro assinado pelo próprio diretor.
 
O livro, publicado em 2008, é uma espécie de romance de formação, no qual, ao final, além de formado enquanto adulto, o herói também ascendeu socialmente. Há um porém em adaptar o livro a essa altura do século XXI: a crise econômica de 2008 torna a história quase implausível. Mas Bahrani parece saber jogar exatamente com as ideias que foram se solidificando ainda mais ao longo dos últimos anos: a meritocracia que serve como base para algo que se convencionou chamar de “empreendedor de si mesmo”, seja lá o que isso for, se é que consegue ser algo para além de desculpa para se vender cursos.
 
Balram (Adarsh Gourav) é o herói aqui, um garoto que nasceu num lugar chamado Laxmangarh, e que irá subir na vida ao aprender jogar o jogo que leva as pessoas ao topo. Ele tinha tudo para ter sucesso: é o melhor aluno da escola, aquele que o professor chama de “tigre branco”, um único exemplar em cada geração capaz de transcender suas origens. Mas as circunstâncias o obrigam a abandonar os estudos e trabalhar. Logo se emprega como motorista de uma família rica, mas não é o começo da jornada rumo à riqueza. O protagonista nos conta que a Índia já teve milhares de castas, mas agora tudo se resume a duas: os que têm e os que não têm, e que acabam sendo os empregados.
 
Os pertencentes ao segundo grupo vivem sob uma espécie de Síndrome de Estocolmo, sendo eternamente gratos por servir aos seus senhores e senhoras. Gourav se revela um tremendo ator, e constrói seu Balram como um sujeito que internalizou essa ideia até a medula - anular-se é a maior prova de gratidão a seu patrão e à família dele. Por debaixo desse verniz de servitude há algo borbulhando, um jogo entre se humilhar e desejar mais do que tem direito. Ele irá trabalhar diretamente com o caçula de seu patrão, Ashok (Rajkummar Rao), que acabou de voltar dos EUA com sua esposa hindu-americana, Pinky (Priyanka Chopra). Eles, ao menos nas aparências, são um casal mais liberal e generoso, e com um certo sentimento de culpa pela exploração – o que, no entanto, não os impede de ainda assim explorar seus empregados. Uma reviravolta, no entanto, reconfigura a relação entre essas três personagens.
 
O filme, assim com o romance de Adiga, faz uma sátira à Índia completamente inserida na dinâmica da globalização, desafiando assim noções neoliberais do presente sobre a agência do sujeito – e, o caso, um sujeito pós-colonial. A liberdade, tão pregada pelo liberalismo, tem um preço, que nem todo mundo pode pagar, e Balram é um desses, embora, tente, a todo momento, tomar o jogo para si. A construção do personagem é excelente porque está o tempo todo na ambiguidade. A subalternidade dele é real, ele realmente crê naquilo? Família é outro tópico importante aqui: ele abre mão de seus sonhos para ajudar sua família, e, mais tarde, toma Ashok e Pinky como sua nova família, e, por mais que eles façam isso parecer verdade, eles também o tomam como membro da família? Ou, na hora da verdade, é realmente o empregado?
 
O roteiro, também assinado por Bahrani, é bem fiel ao romance (às vezes até demais) e confia mais do que devia na voz do narrador, a ponto de se tornar excessiva, além de outros tiques desnecessários – como na abertura do filme, quando a cena congela, e Balram começa a contar sua história, até que aquele momento é retomado exatamente na metade do longa. É um artifício barato típico dos anos de 1990 – à la Casino, por exemplo, mas mais bem usado por Scorsese. Mas quando o filme se encontra, o diretor consegue extrair diversão e crítica ao neoliberalismo e várias de suas mentiras.
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