É fácil entender porque a veterana diretora polonesa Agnieszka Holland interessou-se pelo personagem de Jan Mikolasek (1887-1973), figura central neste O Charlatão, indicado para representar a República Tcheca na disputa de uma vaga no Oscar 2021 de filme em língua estrangeira. Herborista que realizava diagnósticos médicos através da análise da urina dos pacientes, a quem curava prescrevendo chás e unguentos vegetais, Mikolasek tornou-se uma figura conhecida na Tchecoslováquia, cuidando da saúde de ricos e poderosos - até estrangeiros, como o rei inglês Eduardo VI - e atravessando regimes autoritários, como o nazismo e o comunismo.
Interpretado pelo ator Ivan Trojan, o herborista-curandeiro ganha camadas adicionais de complexidade num roteiro, assinado por Marek Epstein, que toma várias liberdades com a biografia do polêmico personagem. Como, por exemplo, afirmar sua homossexualidade, vivendo uma paixão proibida com seu assistente, Palko Frantisek (Junaj Loj) que, apesar de casado, morava com ele. O filme concorreu ao prêmio Teddy no Festival de Berlim 2020.
Conduzida com sobriedade pela diretora, a narrativa foca nos anos 1950, quando Mikolasek, maduro e famoso, atendia diariamente dezenas de pessoas, em sua concorrida vila no interior tcheco, perto de Praga. O acontecimento definidor da mudança de sua sorte ocorre em 1957, ano da morte do presidente Antonín Zapotocky, seu cliente e protetor. Sem poder mais contar com essa proteção, o herborista passa a ser alvo de pressões, perseguição e avisos nada gentis para que abandone o país.
A opção de traçar o perfil do protagonista como um homem duro e misterioso e revelar seu passado aos poucos, em alentados flashbacks, permite ao espectador compassar, também, seus próprios sentimentos em relação a este homem, que atende diariamente tantos doentes, aparentemente sem aproveitar-se economicamente de seu sucesso - embora seja notório que ele vive com bastante conforto, quem sabe remanescente de outros tempos.
Sem preocupar-se com uma fidelidade biográfica estrita que, de qualquer modo, escaparia entre os dedos, a história compõe um personagem rico em contradições, determinado ao assumir seu dom de curar, seu estudo das plantas, seu treinamento com uma mentora que o iniciou na análise da urina - que lhe valeu o pejorativo apelido de “o oráculo da urina” - e, acima de tudo, sua excepcional capacidade de sobrevivência nas condições mais duras. Uma das mais desafiadoras, sem dúvida, durante a invasão nazista, em que, depois de quase ser morto, ver-se obrigado a cuidar de altas patentes do regime, como Martin Borman - uma situação que, depois da guerra, lhe custará outra espécie de negociação, para livrar-se da suspeita de colaboracionismo.
Procurando não julgar seu personagem, o filme apresenta um ser humano complexo, que a paixão por Palko humaniza e fragiliza sobremaneira. Os elementos fictícios, como o julgamento e o destino final dos dois personagens, são dramaticamente muito fortes e envolventes. Mais uma vez, imprima-se a lenda.
