05/07/2026
Drama

Malmkrog

Livremente inspirado nos escritos do filósofo russo Vladimir Solovyov, esse drama traz um grupo de membros da elite envolvidos nas discussões mais variadas, sem perceber que o mundo ao seu redor está mudando, e isso poderá custar sua posição social.

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Ninguém sairá indiferente ao romeno Malmkrog (mesmo que o abandone antes do final), um longa de mais de 3 horas baseado na obra do filósofo russo do século XIX Vladimir Solovyov. Escrito e dirigido por  Cristi Puiu. mais do que um filme, é um desafio e um evento cinematográfico na mesma medida. Obviamente, não é fácil de se penetrar ali, mas, por outro lado, o longa tem muitas recompensas para quem aceitar se empenhar nas suas discussões. Tudo ali poderia conspirar contra, mas há algo quase mágico que Puiu consegue conjurar e assim seduzir boa parte do público.
 
O cenário é Malmkrog, na região da Transilvânia, e o período é em torno da Noite de Natal por volta de 1900. O retrato que Puiu faz é de um projeto de civilização em vias de deixar de existir – se mudaria para algo melhor, ou pior, é outra questão. Em cena, gente rica e culta, uma elite parasitária mas muito estudada, que discute filosofia, religião, poder, realpolitik, Deus, Jesus, diabo, vida e morte, com destreza de argumentos. O roteiro se constrói em pequenos embates dialéticos sobre temas do momento e outros atemporais: bem versus o mal, o divino versus o mundano, honra, nacionalismo, e por aí vai. Tudo em francês, porque precisam ressaltar que não usam linguagens de gente simples. Eles são cruéis uns com os outros, desfazem e refazem parcerias conforme a necessidade do argumento.
 
Tudo se passa numa mansão cercada de neve – mas o interior parece ainda mais gélido do que lá fora. Puiu, trabalhando com o diretor de fotografia Tudor Vladimir Panduru, realiza um filme austero, em que cada vírgula dos diálogos, cada movimento dos atores e atrizes e da câmera é meticulosamente orquestrado, dando a dimensão desse mundo de aparências que encobre a essência de cada um. Há ecos tanto de O discreto charme da burguesia quanto de A regra do jogo. Da literatura, o longa pega emprestado algo dos húngaros – em especial de Sándor Márai, e seu As Brasas – mas Malmkrog vive em seu universo particular à espera do fim que certamente virá, como se sabe, menos de vinte anos depois.
 
A narrativa é dividida em capítulos que levam o nome do dono da propriedade, Nikolai (Frédéric Schulz-Richard); e seus convidados: o arrogante Edoard (Ugo Broussot), a passional Ingrida (Diana Sakalauskaité); Olga (Marina Palii), uma sofredora; e Madelaine (Agathe Bosch), mulher de um general pobre, e um capítulo que leva o nome do mordomo, István (István Téglás). Toda a ação se dá por meio de conversas, mas alguns pequenos imprevistos animam o filme, como um desmaio, uma bofetada e um ataque à mansão.
 
Puiu, que tem em sua filmografia, Aurora e Sieranevada, faz parte da nova onda do cinema romeno, que passou a chamar a atenção no começo da primeira década do século, e se consagrou quando Cristian Mungiu ganhou a Palma de Ouro, em 2007, por 4 meses, 3 semanas e 2 dias. O cineasta estreou com A morte do senhor Lazarescu, um filme de humor peculiar e urgência em sua narrativa. Aqui, ele vai para o extremo oposto – há humor mas não necessariamente dentro do filme, e sim vindo de pensamentos e ideias, algumas vezes, ridículas, que os personagens externam e a urgência de dissipa, numa narrativa enclausurada (mas não claustrofóbica) de mais de 3 horas, com seu tempo próprio.
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