05/07/2026
Drama

Vida Selvagem

O casamento de Jeanette e Jerry vive turbulências que se acentuam quando ele sai de casa atrás de um trabalho arriscado. Acompanhada de seu filho adolescente, ela tenta refazer sua vida.

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Paul Dano sempre foi um ator interessante, que constrói personagens de maneira sutil. Sua força na tela surge de maneira quase imperceptível – basta ver Sangue negro, em que fica lado a lado com Daniel Day-Lewis e fica praticamente à mesma altura. Por isso, não é surpresa que sua estreia como diretor, Vida selvagem, seja mais ou menos da maneira como atua: é discreto até que explode. E nessa explosão Carey Mulligan brilha como nunca.
 
Baseado num romance de Richard Ford – com roteiro adaptado por Dano e Zoe Kazan, sua mulher –, o filme é situado numa região repleta de florestas em Montana, numa época do ano em que, devido à seca, o fogo se alastra com facilidade, requerendo muitos homens para o apagar. Como muita gente está desempregada, eles trabalham por um mísero dólar por hora. Jerry (Jake Gyllenhaal) é um deles, e abandona a mulher, Jeanette (Mulligan), e o filho de 14 anos, Ed (Ed Oxenbould), na casa para onde acabaram de mudar, para, como diz, “sentir-se útil”.
 
A época é o começo dos anos de 1960, e a sociedade da década anterior ainda é um peso forte sobre os personagens. A revolução sexual, a Guerra do Vietnã, Woodstock, tudo isso estava longe. Mas Jean, como é chamada, assume o comando da família na ausência do marido. o casamento entra em crise, especialmente quando ela conhece Warren (Bill Camp), um de seus alunos de natação.
 
O filme é narrado pelo ponto de vista de Ed, abordando a perda da inocência de um garoto de 14 anos, descobrindo que o mundo (e a vida a dois) não é exatamente como ele pensava. Em Oxenbould, o filme encontra um ator que responde à altura das necessidades do personagem. Ele pouco fala e muito observa. As mudanças ao seu redor são rápidas demais para ele processar o que está ocorrendo e, quando consegue, pode ser devastador para ele.
 
Na superfície, Vida Selvagem é quase um drama convencional, muito bem atuado e muito perspicaz em seu retrato da vida numa cidade pequena dos EUA na época. Mas Dano, como não podia deixar de ser, de forma discreta, se revela um diretor promissor. A paleta de cores em tons pastel – assinada pelo uruguaio Diego García, de Boi Neon e Cemitério do esplendor – estão no limite da inocência que vai sendo consumida, como a floresta pelo fogo. Há um quê de claustrofóbico aqui, e os personagens parecem presos a uma vida da qual precisam se libertar – sufocados até.
 
Se Gyllenhaal fica fora de cena boa parte do filme, é Mulligan quem domina o filme. Como sua personagem é sempre vista pelos olhos do filho, há algo de um Édipo contidamente apaixonado pela mãe – talvez porque ela é a única mulher que conhece. Ela o trata como adulto, apesar do lado materno forte, e a relação deles é peculiar. Todos eles estão, na verdade, como a sociedade americana daquele momento, no limite. Uma mudança é inevitável – para eles e para o mundo.
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