Lili Marlene foi lançado em 1981. Seu roteirista e diretor, o alemão Rainer Werner Fassbinder, ainda faria outros quatro longas antes de sua morte precoce em 1982, aos 37 anos. Nem sempre incluído entre suas obras-primas, é de seus trabalhos mais interessantes, no qual investiga a relação entre cultura e a história de seu país, convergidas em uma música de sucesso que dá título ao filme.
Hanna Schygulla, musa e amiga próxima do diretor, interpreta Willie, uma cantora cuja trajetória é um paralelo à ascensão e queda do nazismo. O ano é 1938, e a protagonista é uma cantora de cabaré, que se apaixona por Robert (Giancarlo Giannini), um judeu suíço que faz parte do movimento antinazista. Sem envolver-se politicamente, para não correr risco, ela o apoia.
A fama dela vem quando grava uma música bem famosa, Lili Marlene, originalmente um poema de 1915 que se tornou célebre quando gravada por Lale Andersen, atingindo o sucesso quando entrou na programação da Rádio Militar, depois da invasão da Iugoslávia pelos nazistas, em 1941. A cantora teve uma vida controversa. Lili Marlene foi proibida por Goebbels, por ser triste demais, e a cantora deixou de se se apresentar por meses. Ela também era amiga próxima de um compositor judeu, o que complicou sua situação, que só melhorou quando regravou a música numa versão usada para propaganda.
Alguns anos depois, Marlene Dietrich, também a gravou, sendo usada pelos Estados Unidos como propaganda para enfraquecer os soldados inimigos. Ou seja, foi uma música que serviu tanto aos propósitos do Eixo quanto dos Aliados. Por isso, é bem sintomático que Fassbinder escolha essa canção para um papel central em seu filme – inclusive emprestando-lhe o título.
A história de Willie não é um espelho direto da trajetória de Andersen, embora Fassbinder pareça ter tomado alguns elementos emprestado. O apelido da cantora era Wilke, bem próximo do nome da personagem. O roteiro toma diversos caminhos, acompanhando a trajetória de sua personagem, mas o mais forte dele, fora o entrecho amoroso, é o desejo de sobrevivência inerente ao ser humano, independente do regime político em que está inserido.
Fassbinder coloca na estética as estratégias típicas de seus melodramas, como O casamento de Maria Braun (também protagonizado por Schygulla), O desespero de Veronika Voss e Lola. Trabalhando com os diretores de fotografia Xaver Schwarzenberger e Michael Ballhaus – dois parceiros com quem fez várias obras –, o cineasta alemão cria uma imagem do decadentismo repleta de luzes difusas e brilho.
A investigação da tênue relação entre história e propaganda é a tônica de Lili Marlene. Fassbinder, repleto de humor e cinismo, como sempre, traça o percurso de sua protagonista como um espelho da narrativa histórica, gerando uma imagem um tanto deformada, talvez por isso mesmo, reveladora.
