26/08/2026
Drama

Minha Noite com Ela

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Minha Noite com Ela (1969), de Eric Rohmer, é um genuíno produto da Nouvelle Vague. Seus diálogos são repletos de citações e discussões cujo objetivo é a descoberta, ou melhor, a exposição do ser humano. Nesse terceiro filme, as preocupações que o cineasta viria a desenvolver em produções posteriores já estão evidentes. Menos atrativo que obras mais recentes, como Conto de Verão (1996), onde o interior das pessoas é mostrado sem que elas tenham de falar sobre si ou sobre seus sentimentos, Minha Noite com Ela é uma boa fonte de pesquisa da origem dessa notória percepção de Rohmer em relação ao ser humano e suas aflições.

O protagonista é Jean-Louis (Jean-Louis Trintignant), um católico devoto que, depois de anos fora do país, retorna à pequena cidade de Clermont. Num de seus parcos passeios, encontra o velho amigo Vidal (Antoine Vitez) que o convida a acompanhá-lo a um recital e depois à casa de uma amiga, a recém-divorciada Maud (Françoise Fabin). Lá, o trio discute inúmeros assuntos, entre eles Françoise (Marie-Christine Barrault), que Jean-Louis encontra nas missas de domingo e por quem nutre uma paixão platônica.

O filme, indicado à Palma de Ouro em Cannes e ao Oscar de roteiro e de filme estrangeiro, faz parte da série Contos Morais e tem como grande tema o relacionamento. Mas aqui, ele vem diluído em intermináveis conversas sobre religião e matemática, e a relação desses dois assuntos com Blaise Pascal (1623-1662). O matemático e teólogo - inventor da seringa farmacêutica e do barômetro - nasceu em Clermont-Ferrant, cidade onde o filme é ambientado. A certa altura da vida, o filósofo passou a defender o Jansenismo, doutrina desenvolvida pelo holandês Cornélio Jansênio (1585-1638), para quem a salvação da alma está diretamente ligada à predestinação. Não por acaso, o jansenismo de Pascal é defendido por Jean-Louis e atacado por Vidal, evidenciando a percepção de mundo de cada um dos personagens.

A discussão sobre predestinação e livre-arbítrio encaixa-se no recorrente flerte de Rohmer com o acaso. A certa altura do filme, o protagonista decide casar-se com Françoise e, sem ao menos conhecê-la, transforma esse "relacionamento" em seu objetivo na vida. Logo no início, Jean-Louis segue a moça para conhecê-la e acaba por perdê-la de vista. Mas quando ele a vê passando pela rua, vai atrás e a aborda. Mais tarde, os personagens se encontram novamente e, por coincidência, a moça precisa de carona para voltar para casa. O acaso divide seu grau de importância com a vontade de Jean-Louis, cuja ausência não o teria impulsionado a falar com a moça. Essa é a dubiedade da casualidade na obra do cineasta: nada é por acaso mas sem ele nada acontece.

Cineweb-16/5/2003

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