05/07/2026
Drama

Berlin Alexanderplatz [1981]

Berlim, 1928. Franz Biberkopf acaba de sair da prisão. Decidido a levar uma vida regrada e honesta, ele é desafiado pelas dificuldades de uma Alemanha em crise colocando em xeque seus propósitos. Série em 13 partes e um epílogo.

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Quando Rainer Werner Fassbinder conseguiu levar seu romance favorito para a televisão, Berlin Alexanderplatz, do seu conterrâneo Alfred Döblin, ele sabia muito bem com o que estava lidando: um submundo repleto de figuras complexas, contraditórias e embriagadas na sua própria pequenez.  Ao todo, são 13 partes e um epílogo, resultando em mais de 16 horas para contar como Franz Biberkopf (Günter Lamprecht) desceu ao inferno e o que encontrou quando chegou lá.
 
Deixando de lado todas as pirotecnias estilísticas típicas do modernismo de Döblin, Fassbinder concentra-se na narrativa quase insuportável da trajetória de seu anti-herói que, no começo da série, sai da prisão, onde passou os últimos quatro anos. Do lado de fora, ele tem medo de tudo - a cidade de Berlim, num processo de modernização selvagem, é cheia de sons, cores, carros, pessoas indo para todos os lados. O ano é 1928, a República de Weimar está com os dias contados até a ascensão do nazismo em 1933. O diretor coloca ao centro de sua série um sujeito praticamente destituído de subjetividade num mundo que está ruindo.
 
Franz prometeu que jamais iria se envolver com a criminalidade novamente, e tenta ganhar a vida com pequenos expedientes lícitos – mas o mundo ao seu redor parece conspirar contra isso. A prostituta Eva (Hanna Schygulla), que conhece de outros tempos, tenta lhe trazer algum conforto – emocional e financeiro. Mas o protagonista está cercado demais pela corrupção da Berlim de 1928 para permanecer imune às tentações.
 
Ele é um homem destituído de vontade própria que se deixa levar pelas circunstâncias – sempre as circunstâncias, nunca por inciativa própria -, e acaba na gangue de Pums (Ivan Desny). Quando percebe, está envolvido num assalto com consequências trágicas. Dando-se por vencido, Franz abraça o mundo da criminalidade, torna-se cafetão de sua namorada Mieze (Barbara Sukowa), o que significa mais alguns degraus rumo ao inferno.
 
Trabalhando com sua equipe de costume - Xaver Schwarzenberger, na direção de fotografia; Peer Raben, na trilha sonora; e Juliane Lorenz, na montagem, entre outros –, o diretor cria um pesadelo narrativo e imagético em 14 partes. Não é muito simples acompanhar Berlin Alexandreplatz, e isso não porque sua narrativa seja fragmentada, difícil de seguir, e sim pela série de desgraças, uma atrás da outra, na vida de Franz, que o diretor filma com certo gosto. A cada capítulo, a tentação de abandonar a série pode ser grande, mas é preciso perseverança, porque a recompensa está toda no epílogo – momento em que Fassbinder abandona Döblin por completo e faz quase um filme à parte, embora isso só funcione se visto em conjunto com a minissérie.
 
Ao realizar a série nos anos de 1980, Fassbinder tinha a vantagem de conhecer a história (da Alemanha, do mundo, não do romance) melhor do que Döblin, que publicou seu livro em 1929, sem a noção dos anos que viriam a seguir. Berlim, tal qual apresentada, está com os dias contados, é uma cidade cuja existência não irá durar muito, mas a corrupção e degradação que a constituem são confortáveis demais a Franz. Lamprecht é um ator impressionante no papel, com seu rosto, ao mesmo tempo, abobalhado e cínico.
 
A trilha sonora é quase um elemento à parte, e talvez um índice sintomático do intervalo histórico e temporal entre o romance e a série. Fassbinder é pós-moderno em sua visão da história como narrativa. A combinação alucinada de música clássica, rock, pop e eletrônica é o sintoma da impossibilidade de se ver a completude da jornada de Franz ou da história da Alemanha, assim como a combinação quase aleatória – embora não o seja – de gêneros e estilos seja um abraço à cultura de massas, como se ele estivesse afrontando as gerações anteriores e sua predileção pelo erudito.
 
Depois de Berlin Alexanderplatz, Fassbinder ainda faria cinco filmes antes de morrer, aos 37 anos, em 1982. A série monumental pode ser sua obra-prima, embora integrando uma filmografia que inclui obras como O medo devora a alma, As lágrimas amargas de Petra von Kant, O casamento de Maria Braun, e Num ano de 13 Luas, fique difícil determinar qual seu trabalho máximo.
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