Vinte e cinco anos depois de sua estreia original, Tempo de Matar é um filme que encontra a questão racial totalmente transformada em comparação à sua visão de mundo muitas vezes superficial e até ingênua. Dirigido por Joel Schumacher, o roteiro é baseado num romance de John Grisham, e, como esperado, traz um jovem advogado um tanto idealista (e outro tanto oportunista) que vê sua grande chance num julgamento de um homem negro.
O advogado é interpretado por Matthew McConaughey, num filme que lançou sua carreira definitivamente. Morando numa pequena cidade do Mississipi, aceita defender um homem que matou outros dois que estupraram sua filha de 10 anos. A volta no parafuso está no ponto racial dos envolvidos nos crimes: os estupradores são brancos assumidamente racistas, e o pai da vítima e vingador e sua filha são negros. Jake é o advogado liberal cheio de boas intenções que entra no caso, e começa a sofre represálias da KKK – especialmente na figura de seu jovem líder, interpretado por Keifer Sutherland.
Não há dúvidas de que o pai da menina, Carl (Samuel L. Jackson), matou os dois homens quando eles estavam no tribunal rumo à audiência na qual, muito provavelmente, receberiam uma fiança de valor baixo. O ponto para Jake é provar que Carl estava tomado por uma insanidade pelo ocorrido por sua filha, ou seja, ele cometeu o crime, mas não pode ser responsabilizado. Uma das complicações é que o homem será julgado por um júri exclusivamente branco numa cidade altamente racista. Soma-se a isso um promotor com sede de poder que pretende fazer carreira política (Kevin Spacey).
Há em cena também uma jovem estudante de direito, rica e brilhante (Sandra Bullock), primeiro é esnobada por Jake, que, mais tarde, acaba aceitando sua ajuda. Todos os personagens secundários funcionam como uma espécie de trampolim para o advogado branco brilhar às custas deles e delas. A maneira como o longa aborda a questão racial é superficial e esquemática, e se traduz, especialmente, no pouco que os personagens negros – excetuando Carl – aparecem no filme, em especial a mãe da menina (Tonea Stewart). Esses personagens parecem existir nesse universo ficcional apenas para os brancos brilharem. Vide a fala de Jake durante o julgamento, que narra o estupro com desnecessária riqueza de detalhes.
Não há dúvida de que Tempo de Matar é cinema de entretenimento, e, nesse sentido, é um filme que prende a atenção – mesmo não sendo difícil imaginar o veredito (embora esse seja outro ponto bem complicado dentro do filme, por mais que satisfaça o público). Mas Schumacher e Grisham parecem almejar algo além disso e, assim que o filme acaba, não é difícil pensar em todos os seus problemas e suas intenções mal-resolvidas.
