É bastante reducionista definir a comédia dramática O Último Jogo como sobre a rivalidade entre Brasil e Argentina. O filme é sobre isso, mas não apenas. A questão central do longa, dirigido por Roberto Studart, é sobre como uma pequena comunidade pode se unir para superar (ou, ao menos, tentar) suas adversidades. O roteiro, assinado pelo diretor e Ecila Pedroso, parte do romance El Fantasista, do chileno Hernán Rivera Letelier, e lança um olhar bastante carinhoso para seus personagens.
O cenário é a cidade fictícia de Belezura, na fronteira entre Brasil e Argentina, que vive da indústria moveleira. Neste momento, uma crise a assola, já que a única fábrica local irá fechar, deixando um grande número de desempregados. Há um pequeno time de futebol ali – boa parte dele, formada por funcionários que perderão seu emprego. Há também uma grande rivalidade com a cidade argentina do outro lado, chamada Guapa, e ganhar o campeonato local seria o grande alento que os moradores dali necessitam.
O Último Jogo se constrói em torno da partida decisiva, que os brasileiro têm poucas chances de ganhar, até a chegada de um forasteiro, conhecido como ‘O Fantasista’ (Bruno Belarmino), que vem com a sua mulher (Betty Barco). Ele é um excelente jogador, mas não está disposto a ficar em Belezura. Além disso, também tem um problema de saúde que pode atrapalhar na hora de jogar. No entanto, os moradores, desesperados, tentam a todo custo, recorrendo a algumas mentiras, impedir que o casal vá embora.
Studart é um documentarista (na sua filmografia está o longa Pra Lá do Mundo), que estreia na ficção com essa comédia melancólica sobre um pequeno mundo ruindo. Belezura é um povoado que se mantinha por si mesmo, sem grandes ambições, mas que satisfazia seus moradores até o fechamento da fábrica. Há um humor inerente das situações, mas sempre permeado por algo meio triste, que dá um tom bastante próprio ao filme.
A fotografia de Pedro Farkas usa tons esmaecidos, como se a história se situasse num passado remoto, ou numa época sem qualquer marcação temporal, trazendo ao filme um quê de nostalgia, uma saudade antecipada da cidade de Belezura, que se tornará fantasma quando boa parte sua juventude for embora em busca de trabalho. Mas, ao fim, o que O último jogo faz, mais do que ressaltar as diferenças entre Brasil e Argentina, é louvar as semelhanças – a começar pelo nome das cidades, que é praticamente o mesmo em línguas diferentes – e a força, em forma de futebol, que faz de todos filhos do mesmo continente.
