Parceiro habitual do cineasta Paolo Virzí nos roteiros de A primeira coisa bela (2010) e Capital Humano (2013), Francesco Bruni escreve e dirige o drama O que será?, uma história, aliás, profundamente autobiográfica.
No papel do protagonista, o diretor de cinema Bruno Salvati, que enfrenta a pior jornada de sua vida ao descobrir um câncer de medula óssea, comparece outro veterano, o ator e diretor Kim Rossi Stuart - conhecido do público brasileiro por filmes como As chaves de casa, de Gianni Amelio, e Estamos bem mesmo sem você, sua estreia como diretor e que também protagonizou.
Bruni constrói seu filme de maneira fragmentada, colocando seu personagem no hospital e intercalando essa passagem com trechos dos vários momentos de sua vida, que aos poucos vão formando o mosaico dessa personalidade em conflito. A narrativa imita, assim, o próprio fluxo mental de Bruno, submetido a quimioterapia e tendo sonhos e pesadelos induzidos pela forte medicação.
Com todos esses elementos de um “filme sobre doença”, quase um gênero à parte em Hollywood, o drama italiano investe na crise pessoal de Bruno e suas relações familiares desestruturadas. Ficou alguma coisa irresolvida em sua separação da mulher, Anna (Lorenza Indovina), com quem tem dois filhos adolescentes, Adele (Fotinì Peluso) e Tito (Tancredi Galli), que ele ama muito mas não conhece tanto. Com seu próprio pai, Umberto (Giuseppe Pambieri), viúvo há muito tempo, Bruno igualmente mantém uma relação de conflito, que sua própria doença leva numa direção inesperada.
A procura de um doador compatível para um transplante de medula para Bruno leva o pai a revelar um segredo do passado - atenção, spoiler à frente! Anos atrás, envolvido numa aventura extraconjugal, Umberto teve uma filha, Fiorella (Barbara Ronchi), com quem não manteve contato depois da infância e que pode agora ser a alternativa para a doação de medula que significa a salvação de Bruno. A aproximação de Fiorella é um episódio revestido de alguns toques de humor, como de resto, o filme infiltra nas próprias relações entre os membros da família.
Um aspecto interessante é como o diretor e roteirista delineia seus personagens masculinos e femininos. As mulheres, inclusive a médica de Bruno (Raffaella Lebboroni), são bastante mais seguras, donas de si, assertivas e até fortes - o que leva a um diálogo crítico quando Adele protesta sobre estar cansada de carregar esta imagem o tempo todo, sem possibilidade de expressar sentimentos. Os homens, por sua vez, são dominados por muitas hesitações e fragilidades, permitindo um respiro na dominância de uma certa imagem de macho latino que costuma impregnar tantos filmes italianos, ainda que em tom de comédia. Aqui, ao contrário, revela-se uma genuína intenção não só de atualizar o registro dos renovados papeis entre os gêneros como uma intenção de discutir os limites das expectativas sociais impostas a todos e todas desde a infância.
Isto não desvia o filme de sua intenção central, que trata de salvação em mais de um sentido. A entrega de Kim Rossi Stuart a todas as estações desta via-crúcis é notável, permitindo-lhe atingir várias notas entre o medo, a irritação, a revolta, a rendição, a luta e a esperança. Tudo isto sem esquecer uma auto-ironia que, em mais de um momento, volta-se à própria arte de fazer cinema, já que Bruno é um cineasta, acrescentando mais uma camada a um filme que merece atenção.
