Noite passada em Soho, drama de fantasia de aspirações e inspirações claramente lynchianas, de Edgar Wright, existe num espectro transitando entre a nostalgia e o pastiche. É um filme que parte de algo instigante: uma jovem que inexplicavelmente viaja no tempo, para seu período histórico favorito, a Londres dos anos de 1960, para enfrentar consequências desastrosas.
Com roteiro assinado por Krysty Wilson-Cairns, a partir de uma história criada pelo próprio diretor, o filme não tem pudor (e nem deveria mesmo) em seu vampirismo estético – sugando de David Lynch a Dario Argento ou Stephen King – mas nem sempre sendo capaz de transformar em algo próprio suas referências. Do uso de cores ao duplo, tudo é combinado para um efeito um tanto de pastiche(oso). A trama é simples, mas, ao mesmo tempo engenhosa. Uma jovem do interior da Inglaterra é aceita numa prestigiosa faculdade de moda na capital. Muda-se para lá, e não se adapta à república onde foi morar. Encontra um quarto na casa de uma idosa, aluga-o, e, à noite, em seus sonhos (?) se torna outra pessoa numa realidade paralela (ou no passado?)
Eloise (Thomasin McKenzie), a protagonista, é uma garota apaixonada pelos anos de 1960, em especial aquele lugar e momento que ficou conhecida como a swinging London, onde jovens experimentavam uma liberdade como nunca antes – uma espécie de resposta mais urbana e sofisticada ao movimento hippie. Tudo em sua vida vem dessa referência – da decoração do quarto às músicas que ouve. Mudar-se para Londres gera apreensão, especialmente em sua avó (Rita Tushingham), cuja filha, mãe da garota, também foi para a capital estudar e se matou.
A mãe é mais um dos fantasmas (no caso, quase literal) com quem Eloise dialoga. As novas colegas de moradia e de escola são ligadas demais no presente, mesquinhas demais para se enturmar com elas. O quarto que aluga é no apartamento de Ms Collins (Diana Rigg), uma idosa gentil mas severa. E, na primeira noite, quando vai dormir, Eloise “acorda” no passado que tanto ama, e se transformou em outra pessoa, Sandie (Anya Taylor-Joy).
A nostalgia se materializa em Noite passada em Soho nesse lugar e momento. Sandie é uma aspirante a cantora que não se importa de fazer o que for necessário para escalar a escada da fama. Envolve-se com um empresário, começa de baixo, como backing vocal numa boate e acaba se prostituindo. A maneira como o longa trabalha o duplo é bastante interessante e visualmente produtiva. Na primeira “viagem” de Eloise ao passado, um jogo de espelhos reflete a imagem dela toda vez que a outra garota passa em frente. É um truque visual eficiente, embora se torne óbvio com o tempo. Mas é no desenrolar da trama que o longa vai se tornando frustrante.
Eloise assume como missão salvar Sandie de seu destino supostamente trágico, e isso a faz perder a razão em sua própria realidade. A protagonista tem surtos durante a aula, se indispõe com seu interesse romântico, John (Michael Ajao), e passa vergonha durante as aulas, apesar de obviamente talentosa. A transformação também é física, especialmente quando começa a usar um cabelo como o da outra garota.
A fascinação de Wright pelos anos de 1960 parece maior até que a de Eloise. No elenco, além de Tushingham (que atuou no icônico Um gosto de mel, de Tony Richardson) e Collins (a protagonista da série inglesa Os Vingadores), também Terence Stamp, um dos rostos mais conhecidos do cinema daquele momento. A estética nas cores e sons a que o filme remete nem sempre têm um sentido além de ilustrar a obsessão da personagem.
A crítica ao presente – em especial a gentrificação do Soho – é um tanto perdida num filme que parece, em si mesmo, gentrificado. Um olhar nostálgico de um mundo passado não serve muito para além dos mistérios que o longa arma em sua narrativa, para depois concluir algo que é uma saída à la Stephen King e bastante fácil (e, como no caso aqui, frustrante) no cinema americano: os mortos querem apenas descansar em paz.
