05/07/2026
Drama

De volta para casa

Alice McNellis volta à casa paterna, depois de muitos anos no exterior, para o enterro do pai, um militar sediado em Nápoles. Na ampla casa da família, ela se reencontra com as memórias de sua infância e adolescência e com um grande trauma não-resolvido.

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Filme de encerramento do Festival de Roma 2019, o drama da veterana diretora e roteirista Cristina Comencini explora as muitas ambiguidades em torno de sua protagonista, Alice (Giovanna Mezzogiorno). 
 
Vivendo há muitos anos fora da Itália, ela retorna para o enterro do pai, Patrick (Trevor White), um militar da Marinha. A história começa como um mergulho nas memórias de infância e adolescência de Alice, que convive, na tela, com suas versões mais jovens: a menina de 10 anos (Clelia Rossi Marcelli) e a jovem de 18 (Beatrice Grannò).
 
A materialidade destas presenças nas diferentes fases do seu passado dá ao filme a oportunidade de transformar flashbacks em situações mais vivas e dramáticas - o que é um acerto, especialmente no que diz respeito à Alice de 18 anos, uma vibrante e desinibida moça dos anos 1960 cuja espontaneidade parece ter-se dissolvido na Alice madura. 
Essas idas e vindas no passado conferem ao filme um recurso imagético interessante, especialmente no confronto com o presente - em que a reprimida Alice percorre os corredores da bela e imensa casa paterna, à beira-mar, em Nápoles, afrontada por fantasmas um tanto sorrateiros.
 
Há uma intenção da diretora de fazer mistério de alguns acontecimentos do passado de Alice, que sua memória houve por bem sepultar e é aí que o filme faz sua aposta mais arriscada e menos eficiente.
 
Gravita em torno de Alice um homem de sua idade, Mark Bennett (Vincenzo Amato), que, nos últimos tempos de vida do pai dela foi um constante companheiro, lendo para ele. É alguém que parece conhecer profundamente Alice, mas ela, estranhamente, não se lembra dele tão bem. Nesse ponto, começa a fazer falta à história um aprofundamento mais refinado destes dois personagens centrais - bem como da única irmã de Alice, Virginia (Barbara Ronchi), que inexplicavelmente some na primeira metade da trama.
 
Misturando gêneros tropegamente, a diretora não dá conta de uma cada vez mais insistente inserção de uma nota de thriller, perdendo pé da consistência da história. Não é mesmo fácil criar um clima de ambiguidade que contemple um aspecto policial dentro de um drama psicológico. Cristina Comencini, com uma mão um tanto pesada, não deu conta de compor uma solução satisfatória.
 
Mesmo Giovanna Mezzogiorno, uma atriz muito experiente, assim como Vincenzo Amato, parecem um tanto tolhidos em papeis cuja complexidade deixou muito a desejar. E ficamos a imaginar um outro destino para a luminosa Alice de 18 anos, uma jovem corajosa e livre cujo desabrochar foi tolhido por um acontecimento traumático.

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