Se Akira Kurosawa ficou conhecido por seus épicos de samurai – embora sua obra seja bem maior do que isso –, em Yojimbo, O Guarda-Costas, o diretor se vale de um tom cômico para contar a história de um ronin (um samurai sem mestre) que chega a uma cidade e a encontra dividida entre duas gangues. Com forte influência dos faroestes, em especial de John Ford, o cineasta japonês compõe uma alegoria sobre um país em guerra civil.
Toshiro Mifune cria o papel do samurai Sanjuro, que seria retomado num filme que leva seu nome no ano seguinte (1962), e numa série de televisão nos anos de 1980. Ele é o forasteiro que, ao chegar a cidade sitiada por dois rivais, resolve oferecer seus serviços a ambos e assim colocar um contra o outro, libertando o local. O plano é bom, mas a execução nem sempre sai como planejado.
Sem dever respeito e satisfação a um mestre, Sanjuro é livre para seguir o Buxido, o código de conduta dos samurais, como bem entender, oferecendo seus serviços tanto ao mercador de seda como ao de saquê, em momentos distintos. O guarda-costas, no entanto, tem suas próprias regras, que incluem nunca cobrar mais do que necessita e não fazer corretamente o serviço para o qual foi contratado. Ele é também é um personagem amoral, mas com um grande senso de justiça, que chega a libertar pessoas sequestradas pela gangue de seu patrão naquele momento.
Seus planos para libertar os moradores daquele local caminham mais ou menos bem, até que entra em cena Unosuke (Tatsuya Nakadai), irmão caçula do comerciante de saquê, que, para surpresa de todos, carrega uma arma, a primeira vista naquele vilarejo, introduzindo um desequilíbrio desonesto para a disputa entre os rivais. O rapaz é capaz de matar pessoas a sangue frio, apenas para mostrar a todos o que pode fazer.
Mifune foi premiado no Festival de Veneza por esse filme, interpretando um samurai subversivo, expondo a ganância capitalista que coloca vidas em risco sem o menor pudor apenas pela sede do lucro. O personagem e estilo do filme, além de render continuações, são assumidas influências para cineastas como Takeshi Kitano e Sergio Leone, em sua Trilogia dos Dólares.
