Marieta Severo e Everaldo Pontes, dois dos melhores atores brasileiros, encabeçam o elenco de Noites de Alface, o drama que marca a estreia na ficção do diretor Zeca Ferreira, adaptando romance homônimo da jornalista e escritora Vanessa Bárbara.
Ada (Marieta) e Oto (Everaldo) formam o casal de idosos que vive entretido no misto de cumplicidade e rotina de uma vida passada numa cidadezinha pacata - no caso, filmada na ilha de Paquetá.Essa casca de normalidade começa a ser quebrada nos pequenos detalhes, desencadeados a partir da insônia renitente de Oto, de conversas sobre sonhos lúcidos e alucinações com o farmacêutico (João Pedro Zappa) e mais ainda nos papos delirantes com o velho carteiro Aníbal (Romeu Evaristo), e nos delírios assumidos de um velho japonês, o sr. Taniguchi (Antônio Sakatsume), envolvendo fantasmas da II Guerra Mundial.
Oto é solitário, não participando da vida social, que pertence inteiramente a Ada. Ele passa quase o tempo todo em casa, espiando a vida pela janela, como se não fizesse parte dela. Ou não mais quisesse fazer.
Logo o filme oferece uma sugestão de que o que envolve Ada pode ser apenas uma lembrança de Oto - e, sem querer dar spoiler, quem leu o livro sabe exatamente do que se trata. O filme usa seus recursos para manter essa questão mais ambígua, sendo decifrada à medida que avança uma narrativa que inclui outros mistérios, como o desaparecimento do carteiro mais jovem, Aidan (Pedro Monteiro).
O elenco é completado por três integrantes do luminoso grupo Galpão: Inês Peixoto, como Teresa; Teuda Bara como a mística Iolanda; e Eduardo Moreira como o delegado que investiga o desaparecimento do carteiro.
Todo este conjunto trabalha para revelar a rotina de uma cidadezinha sonolenta, onde todo mundo se conhece e parece que nunca acontece nada. Pura ilusão. Sob essa aparência de normalidade impecável, a tragédia pode ocorrer a qualquer momento, como suspeita o próprio Oto, um fã de romances policiais, que embalam suas noites em claro, a que os prosaicos chás de alface parecem não oferecer solução.
É um prazer enorme ver na tela dois veteranos tão donos de seu ofício quanto Marieta e Everaldo para encarnar as sutilezas do relacionamento de um casal há muitos anos junto, o que extrai das menores situações um significado que dispara os sinais de tantos sentimentos, hesitações e segredos. É a primeira vez que estas duas jóias do cinema e do teatro brasileiros contracenam num filme. Que venham muitas outras ocasiões como esta.
