É impressionante o desprendimento com que o ator Félix Maritaud (120 Batimentos por minuto) se entrega ao seu personagem e ao filme Selvagem, do estreante Camille Vidal-Naquet. O ator interpreta um garoto de programa, sem casa ou rumo na vida, num longa que faz um retrato cru e nada glamourizado da profissão, que, conforme apresentada aqui, além de perigosa, pode ser tediosa, em suas esperas, e assustadora, em suas incertezas.
Vidal-Naquet, que também assina o roteiro, faz um estudo de personagem vivendo no limite. Leo é uma figura que se deixa levar demais pelas emoções num métier em que se deve prezar pelo impessoal. Ele é o tipo de garoto de programa que acaba se apaixonando pelo cliente, mas o filme é frio e um tanto distante para embarcar nos semi-delírios românticos de seu protagonista.
Mas o objeto de seu desejo acaba sendo um colega de trabalho, que atende pelo nome de Ahd (Eric Bernard), com quem Leo tem uma relação ambígua, após um ménage à trois com um cliente. O que esperar do colega? Amor ou obsessão? Ódio? Competição? O protagonista é, claramente, uma pessoa carente, a ponto de tornar excessiva sua presença na vida do outro.
Selvagem lida com as cenas de sexo com o mesmo distanciamento emocional com que observa seu protagonista. É mais um elemento que Vidal-Naquet usa para mostrar como as eventuais fantasias sobre a profissão são, meramente, fantasias de quem não a conhece por dentro. Destaca-se, ainda, o magnetismo de Maritaud, num personagem que poderia facilmente cair no simplismo e na superficialidade. Ele injeta vida e sinceridade em Leo.
