A priori, Filhos do Ódio seria um filme bastante problemático e problematizável ao contar a história de um homem branco, neto de um membro da Ku Klux Klan, cuja consciência social (e racial) é despertada e o transforma num ativista contra o racismo. Essa é uma história real, e figuras centrais do movimento dos direitos civis dos anos de 1960 são colocados como coadjuvantes. Mas o longa, escrito e dirigido por Barry Alexander Brown, evita o clichê (na maior parte do tempo, ao menos) do “branco salvador”, por isso se sustenta. E o fato de ter Spike Lee como produtor executivo também o reforça.
Montador de diversos filmes de Lee – entre eles, Malcolm X e Infiltrado na Klan –, Brown faz um filme convencional a partir do livro de memórias de Bob Zellner, um rapaz loiro que, num momento de convulsão social, renegou a ideologia de seu avô e abraçou a causa social. Ele é interpretado por Lucas Till. O diretor recria o sul profundo daquela época com todas suas contradições e preconceitos.
Um pouco mais esclarecido do que seus colegas de classe, para um trabalho na escola, ele entrevista Ralph Abernathy (Cedric the Entertainer) e Rosa Parks (Sharonne Lanier), duas figuras centrais do movimento antirracista, que vão à igreja local para fazer uma palestra sobre os 5 anos de aniversário do famoso Boicote aos Ônibus de Montgomery, quando a jovem Rosa se recusou a mudar de lugar num ônibus que separava os negros dos brancos. A partir daí, uma chama se acende no rapaz, que o levará a confrontar o avô assumidamente racista (Brian Dennehy, morto no ano passado, e, aqui, em um de seus últimos papéis no cinema).
A figura de Bob, é claro, não surge do nada. Seu pai (Byron Herlong), um pastor metodista, já havia confrontado o racismo e, literalmente, dá a benção ao filho para se unir ao movimento dos direitos civis. Quem discorda de tudo isso é a noiva do protagonista, Carole Anne (Lucy Hale). Embora seja apoiadora dele no princípio, com o tempo volta-se contra o envolvimento do rapaz na luta pela igualdade racial. A figura mais forte a contrapor-se aos novos princípios dele não poderia deixar de ser o avô, que promete ele mesmo dar um tiro na cabeça de Bob se o vir num protesto.
Brown faz um filme à moda antiga, por assim dizer, mas isso não significa que Filhos do Ódio não seja relevante. Apesar de romantizar e amenizar a trajetória de Zellner, o longa cumpre o papel de levar para mais pessoas, com sinceridade e boa vontade, a história desse homem e mostrar que, em mais de 50 anos, algo mudou, mas muita coisa ainda precisa ser mudada.
