Dirigido pelo cineasta japonês Nobuhiro Suwa, O leão dorme esta noite é uma curiosa mescla de gêneros, ideias, caminhos em que o mais notável é a liberdade para assumir que tudo é ou pode ser cinema. Pode dar-se ao luxo desta viagem por escolher como seu guia um ator emblemático, Jean-Pierre Léaud, o inesquecível intérprete dos filmes de François Truffaut e Jean-Luc Godard.
O filme é uma espécie de viagem, com um intinerário mais ou menos livre, que explora as incertezas da própria filmagem. Leáud interpreta Jean, um velho ator engajado numa produção, em que deverá interpretar a própria morte - o que visivelmente o incomoda - e que sofre uma interrupção devido a uma crise nervosa de uma das atrizes.
Aproveitando a folga, Jean volta ao passado, revisitando uma velha casa, hoje abandonada, em que décadas atrás ele viveu uma história de amor com Juliette (Pauline Étienne). Na casa decadente, apenas um único quarto, no andar de cima, guarda as cores e móveis intactos, como se preservado por um filtro do tempo. E ali Jean verá Juliette, viva e jovem como há 40 anos atrás.
Diretores japoneses cultivam este amor por fantasmas que não parecem exatamente fantasmas, vivos como nas lembranças de quem os evoca. É exatamente isto o que se passa com Jean, que será desafiado também por outra circunstância. A casa decaída atraiu a atenção de um grupo de crianças locais que decidiram fazer ali um pequeno filme. Depois de malentendidos iniciais, Jean aceita fazer parte do projeto, que se transforma numa historinha de terror, aliás, povoada por fantasmas, ainda que numa encarnação mais pop.
Este encontro da trupe infantil permite à história explorar percepções sobre o próprio cinema - como se o diretor dissesse que quem não tiver a disponibilidade e coragem das crianças para tentar o que quer que sua imaginação e sentimentos sugiram, não encontrará as melhores possibilidades do cinema. No fundo, é simples, ainda que as situações e sentimentos de Jean não o sejam.
Sua história frustrada com Juliette é mais densa e profunda do que as crianças podem acompanhar - ainda que elas próprias, eventualmente, tenham seus pequenos dramas para lidar, como é o caso de Jules (Jules Langlade), às voltas com a falta sentida do pai morto e a necessidade de conviver com o novo namorado da mãe (Maud Wyler).
Certamente, muitas das situações encenadas pelas crianças soam improvisadas e Léaud - que no passado foi um ator infantil - parece ele mesmo estar se divertindo em participar. No fundo, O leão dorme esta noite não tem grandes teses a defender, nem grandes acontecimentos e viradas dramáticas. Procura apenas uma sinceridade de um pequeno projeto experimental que incorpora trechos de vida de cada um de seus intérpretes. Nisto reside seu encanto e seu charme discreto.
