Com 9 Dedos, o cineasta francês e poeta punk F. J. Ossang não veio para explicar, mas para complicar. Seu filme, que lhe rendeu o prêmio de direção no Festival de Locarno, é um pesadelo lisérgico num belo preto e branco, com fotografia assinada por Simon Roca. O longa começa como um noir misterioso, numa atmosfera asfixiante, em que pouco se explica e se acaba tomando caminhos que chegam ao apocalipse.
Magloire (Paul Hamy) é o protagonista que, ao fugir da polícia, tromba com um desconhecido agonizante e herda uma fortuna. Pensou que seria sua sorte, mas foi seu azar, pois é perseguido por uma gangue, liderada por Kurtz (Damien Bonnard), e acaba com refém deles e, inevitavelmente, cúmplice num roubo a banco. O grupo todo embarca num navio infestado de polônio.
O único compromisso de Ossang aqui parece ser subverter gêneros, passando do noir ao expressionismo existencialista que flerta com o fim do mundo. Sua preocupação não é uma narrativa concatenada, com trama explícita, e sim colocar o público junto com seu protagonista na incompreensão do presente. O que está acontecendo? Por que agem assim? Nada disso fica muito claro, e é nisso que está a beleza do filme.
A ameaça constante de que algo de muito explosivo está para acontecer potencializa os personagens em suas estranhezas. A desorientação deles é clara, e o diretor leva isso ao filme. A virada para o expressionismo faz cada vez mais sentido dentro desse universo de representações exageradas, beirando a caricatura humana e repleto de um humor excêntrico, resultando numa espécie de noir punk.
