A família da moça, liderada com mão de ferro por seu pai, o milionário Harald (Michel Piccoli, outro veterano que sempre se arrisca em produções audazes) querem sua morte para apoderar-se de uma herança. Livia é a herdeira da fortuna de sua mãe, que acumulou bilhões com o lucro da venda de um tempero muito popular, o Salsox. A morte da jovem é encomendada a um louco de hospício, Emil Pointpoirot (Bernard Giraudeau), acometido por surtos freqüentes e obcecado pela medição do nível de açúcar do próprio sangue - bem como de suas vítimas. Circunstâncias particulares fazem com que Emil, solto do hospital especialmente para o "serviço", não mate a moça e sim seus parentes. Um aniquilamento progressivo que dá margem a cenas de humor negro puro e a uma seqüência de jantar que Buñuel não ousaria colocar em seu O Discreto Charme da Burguesia - mas que poderia até caber nesse filme do mestre espanhol, de tão surrealista, embora no limite do grotesco.
Sem ser Buñuel, Ruiz é um esteta refinado e um crítico da burguesia, a seu modo. Esta sua história, que ele mesmo classifica no começo como um "filme helvético de Raoul Ruiz", flerta com a fantasia que passa pela cabeça de muita gente em torno da Suíça, país conhecido por abrigar bancos superpoderosos onde gângsters, políticos e milionários desonestos (alguns deles, brasileiros) costumam esconder lucros suspeitos em contas numeradas. Mas não deixa de introduzir também sua idéia sobre a estranha intuição dos loucos ou simplesmente daqueles que fogem à normalidade instituída, como Livia. E daí extrai um filme que pode não agradar a todo mundo mas com certeza não matará ninguém de tédio.
Cineweb-15/5/2003
