Hava está nos últimos dias de gravidez, mas seu marido e os sogros, com quem moram, não lhe dão a menor folga, cumulando-a de tarefas domésticas, sem nenhum apoio ou afeto. Maryam é apresentadora de TV e acaba de terminar um casamento de 7 anos quando se descobre grávida. Jovem envolvida num casamento de conveniência, Ayesha corre contra o tempo para juntar dinheiro para fazer um aborto.
- Por Neusa Barbosa
- 06/07/2021
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O longa de estreia na ficção da documentarista afegã Sahraa Karimi reúne três histórias simples, que permitem um mergulho em parte dos dramas da condição feminina em seu país. O filme foi o representante do Afeganistão na disputa de vaga no Oscar de filme estrangeiro em 2020 e teve sua première mundial na seção Horizontes do Festival de Veneza 2019.
Seguindo um eixo dramático simples e direto, o drama empresta seu nome das três protagonistas, mulheres de idades e condições sociais diferentes que têm que enfrentar as consequências de uma gravidez.
Hava (Arezoo Ariapoor) vive na situação mais tradicional das três. Casada, está nos últimos tempos de gravidez e mora com os sogros. Indiferentes ao seu estado, os homens da casa cumulam-na de tarefas e nem esboçam uma tentativa de oferecer-lhe ajuda. O marido (Halim Azhman) traz hóspedes todos os dias, obrigando Hava a cozinhar grandes quantidades de comida. O sogro (Hanif Nazami), cuja mulher está inválida e também dependente de Hava, trata a nora com aspereza e vive lhe pedindo coisas.
Apostando numa câmera intimista, a diretora induz empatia por esta mulher, com movimentos prejudicados por uma imensa barriga, subindo e descendo uma precária escada, carregando água, cozinhando, lavando, sem parar nem receber uma palavra de apoio. Seus únicos momentos de afeto são quando ela, sozinha, conversa com o bebê que tem no ventre. Socialmente, familiarmente, Hava é invisível.
Maryam (Fereshta Afshar) é outro tipo de mulher. Urbana, trabalha como apresentadora de uma emissora de TV e, já no seu ambiente de trabalho, fica claro que ela é independente e dona de sua vontade. Intimamente, está vivendo um grande drama: acaba de separar-se do marido de 7 anos, Farid, que a traía repetidamente. Agora, ele não lhe dá sossego, assediando-a pelo celular, tentando convencê-la a voltar.
Maryam está decidida a divorciar-se, mas tem um dilema para resolver: está grávida, quer um aborto e seu marido não pode saber. Neste sentido, a história cria uma ponte com Hava, já que as duas mulheres, independente de suas diferenças pessoais, não podem compartilhar seus sentimentos, tendo de arcar sozinhas com o peso emocional de sua respectiva situação.
Até mesmo o réquiem para seu casamento tem que ser vivido a sós. A longa sequência em que Maryam resgata de um baú seu vestido de noiva e decide vesti-lo, ao mesmo tempo que discute com Farid ao telefone, materializa este adeus de uma forma bastante visual e teatral também.
Da mesma maneira, Ayesha (Hariba Ebrahimi), uma jovem de 18 anos, toma uma decisão sobre uma gravidez indesejada que deve ser mantida em segredo. Ela foi deixada por um namorado e decidiu aceitar a proposta de casamento do primo, Suleiman (Faisal Noori), atendendo a um velho desejo de sua própria mãe (Sabera Sadat). Antes disso, ela junta dinheiro avidamente para um aborto, do qual só sabe sua melhor amiga, Marzieh.
Em termos formais, a diretora optou por soluções despojadas e eficientes. A história se abre com uma grande panorâmica de Cabul, a capital afegã em que quase todas as casas e prédios parecem da cor da areia do deserto, fornecendo um cenário amplo de onde serão extraídas, uma a uma, as três histórias que sustentam a narrativa. Ao longo do filme, criam-se mecanismos simples para introduzir uma história na outra. O conto de Hava termina numa TV ligada, em que o noticiário anuncia um atentado a bomba na cidade, e do qual Maryam é a apresentadora. Ayesha, por sua vez, é vizinha de Hava num bairro popular.
Assinado pela diretora e Sami Hasib Nabizada, o roteiro estrutura-se em temas comuns, dedicando-se com um pouco mais de nuances a Maryam, indiscutivelmente a personagem de quem se saberá mais ao final. O pequeno desequilíbrio certamente pode ser creditado à inexperiência da diretora com a ficção mas não enfraquece o interesse por um filme que traz tantos subtextos da realidade de um país que só costuma entrar em nossas telas através de noticiários sobre guerra.
