Quatro décadas de um casamento percorrem a narrativa do drama Laços, em que o veterano diretor italiano Daniele Luchetti alterna épocas, na montagem que ele assina com Aël Dallier Vega (montadora do premiado drama Atlantique, da franco-senegalesa Mati Diop).
A experiência do diretor, que assina Meu Irmão é Filho Único (2007) e O Rei de Roma (2018), e um elenco verdadeiramente estelar são os pontos fortes de um filme que, em comparação aos dois títulos citados, mostra-se praticamente desprovido de ironia ou humor. Adaptando com densa gravidade o romance de Domenico Starnone, o drama reveste-se do peso do rancor, desencadeado a partir de um caso extraconjugal, e dos ressentimentos acumulados por toda uma vida, não só pelo casal principal como por seus dois filhos - resultando num retrato amargo da família.
O enredo decola na Nápoles dos anos 1980, quando Vanda (Alba Rohrwacher) e Aldo (Luigi Lo Cascio) vivem aparentemente felizes, com seus dois filhos pequenos, Sandro e Anna. A confissão dele de que esteve com outra mulher desata o pesadelo, pois Vanda reage da pior maneira possível. O episódio leva a uma separação, com Aldo passando a viver em Roma, onde trabalha, mantendo uma ligação com a colega Lidia (Linda Caridi).
Desdobrada em três atos, a história se alterna no tempo, num deles mostrando o casal mais velho, agora interpretado por Silvio Orlando e Laura Morante. As explicações de como e porquê ali estão nesta fase vão sendo inseridas aos poucos, sem que necessariamente o recurso à alternância de épocas evidencie grandes surpresas, num andamento que visivelmente coloca à flor da pele o potencial de destruição de um amor exposto a tantas mágoas mal-resolvidas ao longo dos anos.
Alguma coisa se perde neste ir e vir no tempo, que deixa escapar a chance de adentrar mais no coração destes dois personagens. Diálogos e situações falham em criar suficiente empatia pela fragilidade humana de um e de outro, pesando-se a mão na instabilidade emocional de Vanda e na indiferença de Aldo de maneira um tanto maniqueísta.
O terceiro ato, que incorpora os filhos adultos, Sandro (Adriano Giannini) e Anna (Giovanna Mezzogiorno), revendo, com seus olhos, a turbulenta história de sua família, mostra potencial para tirar o filme de uma certa armadilha narrativa, como se o diretor tivesse se empolgado demais com sua montagem giratória, deixando de atentar para cenas de real intimidade e revelação.
Trata-se, é certo, de um elenco que reúne alguns dos maiores nomes do cinema italiano, que sempre é muito bom ver na tela. Por isso, se lamenta que o filme não tenha flexibilidade para um respiro mais irônico, uma levada mais fluida.
