05/07/2026
Drama

Irmãos à italiana

Valerio é o filho mais velho de Alfonso, subcomandante da polícia romana nos anos 1970. Sua família sofre um trauma quando o pai é atingido a tiros num atentado dos grupos armadas da época. Os conflitos de Valerio encontram apoio em Christian, um novo amigo que ele conhece nas ruas.

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Drama que concorreu ao Leão de Ouro em Veneza 2020 e lá conquistou o prêmio de melhor ator para Pierfrancesco Favino, Irmãos à Italiana, de Claudio Noce, se apóia num registro que desafia o realismo, ao manter uma espécie de névoa sobre uma vida recordada por um menino, Valerio (Mattia Garacci).
 
Há uma assumida sugestão autobiográfica no enredo, embora o diretor tenha se permitido inúmeros desvios de sua própria trajetória pessoal. De todo modo, Noce é alguém que viveu sua infância na Itália dos anos 1970, sacudida pela ação de diversos grupos terroristas e sofreu, quando pequeno, o trauma de ter seu pai, subcomandante da polícia romana, ferido num atentado - o mesmo incidente central do filme, roteirizado pelo diretor e por Enrico Audenino.
 
Valerio tem 10 anos e é o filho mais velho de Alfonso (Pierfrancesco Favino) e Gina (Barbara Ronchi). Chefe de polícia, o pai se ausenta frequentemente de casa, onde Valerio fica entregue ao cuidado da mãe, isolando-se dela e da irmã menor (Lea Favino) para criar seu próprio mundo de fantasia - que inclui um esconderijo e um amigo imaginário invisível, com quem ele conversa animadamente.
 
A espinha dorsal da história é a formação da masculinidade e, neste sentido, é essencial a ligação de Valerio com este pai distante e idealizado, cujos escassos momentos compartilhados com a família são extremamente valorizados pelo menino. E suas ausências, por outro lado, são as lacunas deixadas à imaginação que o menino fica tentando preencher no seu refúgio. 
 
A inocência de Valerio é abalada no dia em que o pai sofre um atentado a tiros na porta de seu apartamento, que é testemunhado da varanda pelo filho. A memória do fato é distorcida não só pelas emoções com que o menino não consegue lidar quanto pela tentativa dos pais de ocultar-lhe a verdade. 
 
Ele encontra conforto num novo conhecido, Christian (Francesco Gheghi), um garoto das ruas, um pouco mais velho, disposto a ensinar-lhe alguns segredos e conduzi-lo em novas aventuras.
 
A maneira como o filme lida com a figura de Christian, oscilando entre a aparência de um personagem imaginário e real, é o grande diferencial da história  - e também seu ponto frágil. Christian funciona como um fantasma, um ser mágico e também como um quase alterego, um irmão mais velho capaz de levar Valerio mais longe e compartilhar de algumas dores do crescimento. A dubiedade como ele entra num ambiente em que coexistem os adultos pode permitir diversas interpretações mas, certamente, tem todo o potencial para confundir os espectadores num mau sentido. Noce e seu corroteirista poderiam ter lidado com esta ambiguidade de maneira mais elaborada e sutil, ainda mais levando-se em conta que um tema central é também a paternidade, cujas carências são compartilhadas pelos dois garotos.  
 
De todo modo, o filme tem seus méritos ao resgatar um período turbulento da história da Itália a partir de um viés intimista, traçando um retrato complexo de uma família naqueles dias - a passagem na Calábria introduz, inclusive, matiza o retrato deste clã. 
 
A fotografia de Michele D”Attanasio pontua os diversos momentos deste folhear de um álbum de recordações que constitui a história. As cenas internas do apartamento da infância de Valerio são banhadas de uma luz dourada que emoldura este passado até certo ponto idealizado, antes do atentado. A luz natural do trecho da Calábria abre o foco para grandes espaços naturais onde a corporalidade de Valerio começa a libertar-se de suas limitações de menino de apartamento de grande cidade. A montagem de Giogiò Franchini, por sua vez, dá agilidade às passagens do turbilhão das memórias do protagonista, atravancadas apenas por algumas indecisões do diretor no tom de seu filme.
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