Passando as férias num resort de luxo, o casal Prisca e Guy e seus filhos Trent e Maddox são convidados a passar um dia numa praia mais restrita do local. Deixados lá com um pequeno grupo de outros hóspedes, percebem que um estranho fenômeno leva as crianças a crescerem e os adultos a envelhecerem rapidamente. O pior é que não há meio de sair de lá.
- Por Neusa Barbosa
- 26/07/2021
- Tempo de leitura 3 minutos
Adaptando, ao lado de seu autor original, o francês Pierre-Oscar Lévy, a graphic novel Sandcastle, M. Night Shyamalan volta à estrada com um suspense/terror com um ponto de partida bem instigante. Levados a uma praia isolada e paradisíaca, os turistas de um resort de luxo vêem-se não só impedidos de sair como percebem, horrorizados, que estão todos envelhecendo rapidamente.
Imagine-se o que não teria feito com isso um bom diretor de terror ou ficção científica de mão precisa e sutil. Mas Shyamalan é outra coisa - sutileza não é seu forte. Entretanto, a bem da verdade, outra coisa que faltou aqui foi contundência, que seria um dos caminhos que se poderia escolher. Como de hábito, Shyamalan fica no meio do caminho, acende uma vela a Deus, outra ao diabo, como se diz, e se contenta com um filme que é até divertido, mas solta as pontas ao longo do caminho.
A família central é formada por Prisca (Vicky Krieps), Guy (Gael García Bernal) e os filhos Trent (Nolan River), 6 anos, e Maddox (Alexa Swinton), 11. As crianças ainda não sabem, mas a mãe está doente e os pais pensam no divórcio. Estas serão suas últimas férias todos juntos.
Assim, Prisca e Guy esforçam-se para dar alegria aos filhos. Até por isso, o convite do gerente do hotel (Gustaf Hammarsten) de levá-los todos para passar o dia numa praia privativa parece irresistível. O convite foi menos exclusivo do que pensaram mas, mesmo assim, há poucos hóspedes ali: o médico Charles (Rufus Sewell), sua mulher Crystal (Abbey Lee), a mãe dele (Kathleen Chalfant) e a filhinha, Kara (Mikaya Fisher). Fora isso, há outro casal, formado pelo enfermeiro Jarin (Ken Leung) e sua mulher, a psicóloga Patricia (Nikki Amuka-Bird). Isso sem contar um solitário ocupante da praia que chegou antes deles, o rapper Mid-Sized Sedan (Aaron Pierre), que só a garotinha Maddox parece conhecer.
O dia na praia se desenrola animado até surgir o primeiro corpo boiando na água - de uma garota, que viera com o rapper e desaparecera, nadando, há algum tempo. A situação começa a estressar todo mundo e acentua a agressividade de Charles contra o rapper, que revela um componente racista que o filme explora, aliás, bem mal. De qualquer modo, todos percebem que não podem deixar a praia - toda vez que tentam fazer o caminho de volta, dentro de uma caverna, desmaiam e são lançados para trás, na areia. Os celulares também não funcionam e ninguém consegue entrar em contato com o hotel, que deveria mandar buscá-los no fim da tarde.
Essa primeira parte da história, em que a sensação de claustrofobia vai se instalando, com as tensões em alta, é sua melhor parte. O pânico cresce quando Prisca e Guy percebem que seus filhos se transformaram, misteriosamente, em adolescentes, ao final de poucas horas (agora interpretados por Alex Wolff e Thomasin McKenzie). Não vai parar por aí e a inexorável metamorfose física afetará também os adultos.
Shyamalan - que faz sua habitual ponta como o motorista da van que traz os turistas para a praia - afasta-se da graphic novel original ao proporcionar uma explicação final a todos estes acontecimentos misteriosos que tem suas próprias inconsistências. Provavelmente, seria melhor ter deixado à imaginação de cada espectador uma explicação para o fenômeno que acelera uma vida inteira na passagem de algumas horas. Uma solução neste sentido ou em algum outro, até, exigiria no entanto uma sofisticação que não está ao alcance deste diretor. Não dá para esperar manjares de quem se contenta com produzir um mero e esquecível prato do dia.
