05/07/2026
Drama

Verão Vermelho

Nos anos de 1920, Olivia vive com o marido, um funcionário do Império Britânico, na Índia. Negligenciada por ele, ela se envolve com outro homem. Mais de meio século depois, Anne, sua sobrinha-neta, viaja à mesma cidade para descobrir a história dessa mulher.

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Partindo de seu romance premiado, publicado em 1974, a escritora e roteirista Ruth Prawer Jhabvala criou, em Verão Vermelho, um filme que parece simples na superfície, mas é complexo em suas camadas de compreensão e comentários sobre a posição na mulher – em especial refletindo a dinâmica entre metrópole e colônia. Aqui, a escritora novamente trabalha com o diretor James Ivory e o produtor Ismael Merchant.
 
Prawer Jhabvala talvez seja mais conhecida como a roteirista dos filmes da dupla Merchant-Ivory, especialmente com suas adaptações de romances de E. M. Forster (Retorno a Howards End, Maurice, Uma janela para o amor) e Henry James (Um Triângulo Diferente, Os Europeus, A Taça de Ouro), do que seu próprio trabalho literário – embora este romance tenha ganhado o Booker Prize, um dos maiores prêmios para romances em língua inglesa. Aqui, ela faz uma adaptação bastante fiel de seu livro, que tem ao centro duas inglesas na Índia, em momentos diferentes, cujas histórias, de certa forma, se espelham.
 
Olivia (Greta Scacchi) é a mulher de um funcionário civil inglês, Douglas (Christopher Cazenove), em Satipur, na década de 1920. O casamento é frio, em contraste com o calor sufocante do verão na região. Em 1982, sua sobrinha-neta, Anne (Julie Christie), vai à Índia, em busca da história dessa mulher, uma espécie de mito em sua família, depois que abandonou o marido. A única coisa que a jovem tem em mãos são as cartas que a outra escreveu para sua avó.
 
Casada com um indiano, Prawer Jhabvala, cuja família tem origem polonesa, conhecia bem a dinâmica da sociedade indiana, sua moral e costumes. Por isso, seus personagens fogem ao estereótipo, são vivos e vibrantes, em especial Nawab, interpretado pelo lendário ator indiano Shashi Kapoor. Um príncipe local, dono de uma grande fortuna, ele se interessa por Olivia, sempre negligenciada pelo marido, e é correspondido.
 
Anne, na Satipur do seu presente, tenta refazer os passos de sua ancestral. Munida das cartas, busca os lugares e também acaba se envolvendo com um indiano, Inder Lal (Zakir Hussain), dono da casa onde se hospeda. Aparece também em sua vida na Índia um hippie tardio norte-americano, Chid (Charles McCaughan), que viaja ao país em busca de iluminação espiritual. O personagem é, propositadamente, um clichê ambulante e, por meio dele, Verão Vermelho faz um comentário sobre o colonialismo da época, quando ocidentais viajavam em busca de exotismo e não de uma cultura real.
 
Mais de meio século separam Olivia de Anne, mas suas histórias são mais próximas do que se poderia imaginar. Para além do colonialismo, Prawer Jhabvala e Ivory comentam sobre a opressão feminina que nunca deixou de existir, mesmo com o movimento feminista dos anos de 1960. As duas inglesas parecem mais livres do que as indianas que, muitas vezes, eram forçadas a jogar-se na pira do funeral do marido, sacrificando-se por ele. As duas mulheres europeias não precisam ir tão longe, mas o quão livres elas realmente são?, pergunta o filme.
 
Ivory sempre foi capaz de transmitir pouco nos silêncios e sutilezas de seus filmes. Aqui não é diferente. O que parecem ser duas histórias de amor de cunho pessoal, no fundo, refletem as políticas inglesas coloniais ao longo do século. Mais do que os laços sanguíneos, o que une Olivia e Anne são suas aspirações e a busca pela liberdade. O espelhamento de suas histórias apenas evidencia que o caminho a ser percorrido está longe do fim.
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