05/07/2026
Drama Ação

Amargo pesadelo

Lewis, Ed, Bobby e Drew são quatro amigos de Atlanta que decidem passar um fim de semana de canoagem no rio Cahulawasse, no norte da Geórgia - cujas corredeiras em breve serão engolidas por uma represa. Mas a viagem transforma-se numa jornada de morte.

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Lançado em 1970, o livro de James Dickey que deu origem a Amargo Pesadelo - roteirizado por ele - lida com o lado intangível do choque entre homens e natureza, perpassado pela tentação eterna do controle da segunda pelos primeiros, não raro com trágicas consequências. Tudo isso e muito mais está no cerne do filme, dirigido com energia por John Boorman, em 1972, e destinado a permanecer na memória de quem o viu como uma cicatriz de fogo, inquietante e eventualmente dolorosa, ardida.
 
Uma experiência inesquecível, em todos os sentidos, une quatro homens, profissionais urbanos de Atlanta, que decidem passar um fim de semana de canoagem, atravessando um rio cheio de corredeiras que, muito em breve, desaparecerão sob uma represa. Eles são Lewis (Burt Reynolds), o tipo mais expansivo, machão e decidido; Ed (Jon Voight), um pai de família calmo e controlado; e o gordinho Bobby (Ned Beatty) e o reservado Drew (Ronny Cox), que parecem mais peixes fora d’água do que os outros nesta aventura que se afigura radical.
 
A fotografia contrastada do húngaro Vilmos Zsigmond, que se vale esplendidamente da luz natural, acompanha o mergulho destes homens da cidade numa natureza selvagem e hostil, no norte da Geórgia, na direção do rio Cahulawasse (e parte do filme foi realmente filmado ali, assim como em outros locais da Geórgia, da Carolina do Norte e da Carolina do Sul). É visível o contraste entre os forasteiros e os locais, estes, homens rudes, feios, sujos e malvados, como se verá adiante. Quase todos pobres, abandonados à própria sorte, em meio a doenças - como se retrata na cena em que Bobby espia pela janela de uma casa arruinada uma velha mulher tomando conta de uma criança deficiente.
 
O confronto dos homens da cidade com os locais começa amistoso, na célebre cena do duelo de banjos que virou marca registrada do filme - entre o menino Lonnie (Billy Redden, um morador local) e o Drew entusiasmado pelo talento bruto do garoto. Mas o prosseguir da viagem, em duas canoas, apresenta desafios cada vez maiores, e não só nas corredeiras. Falando nelas, é notável como os quatro atores realmente ali estão em muitas cenas. Até fisicamente, não foi um filme fácil de fazer para nenhum dos envolvidos.
 
O que está em jogo na história é este desafio de procurar perigos que sua vida normal não lhes reserva, encontrando situações em que a própria sobrevivência está em risco. Além dela, experiências violentas com alguns dos locais mais selvagens marcam para sempre o quarteto - tanto Bobby, vítima de um estupro, quanto os demais, envolvidos na vingança e também como alvos de ataques a tiros, de inimigos invisíveis.
 
Pouco a pouco, a trajetória rio abaixo torna-se uma experiência de vida ou morte, em que papeis se alternam e homens até ali pacíficos encontram em si mesmos instintos caçadores que desconheciam - a passagem mais radical sendo a de Ed, numa sequência em que escala uma rocha escarpada, armado de seu arco-e-flecha, em busca de um misterioso atirador escondido no alto.
 
É indiscutível também que Amargo Pesadelo fala de machismo, daquilo que constitui a masculinidade, daquilo que a afronta, de seus medos mais profundos, de seus dilemas mais irresolvidos, distribuídos entre os quatro passageiros desta malfadada viagem. Quase 50 anos após o seu lançamento, o filme ainda ressoa com força e levanta questões candentes. 


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