“Se a cidade do Rio fosse uma pessoa, era um travesti”, diz a biografada logo no início do documentário Luana Muniz – Filha da Lua. A atriz e travesti ficou nacionalmente conhecida quando, em 2010, disse: “Tá pensando que travesti é bagunça?”, batendo em um cliente que se recusava a pagar. A imagem foi gravada para um especial de televisão sobre o trabalho de acolhida de Luana em favor de travestis sem casa.
Dirigido por Rian Córdova e Leonardo Menezes, o documentário resgata não apenas a história de Luana, morta em 2017, pouco depois do final das filmagens, como a cena boêmia da Lapa, onde era conhecida como Rainha, e também o trabalho de atores, atrizes e travestis que gravitavam ao redor dela. Histórias da vida dela refletem a história da arte de se travestir no Brasil nos últimos anos.
Córdova e Menezes compõem um retrato não apenas em primeira pessoa com as falas da própria Luana, mas também as impressões de amigos, amigas e admiradores. Ela era uma figura impressionante, alta, com sua cabeleira loira e com um discurso de impacto. Seu lado artístico é bem retratado no filme, com o resgate de bastantes imagens de arquivo, de shows e peças da artista, mas também se aborda seu importante trabalho social.
Ela administrava um casarão na Lapa, onde cuidava de travestis sem-teto, dando-lhes não apenas abrigo, mas também cuidando da documentação e saúde. Foi com esse trabalho que Luana serviu de exemplo, conforme é mencionado por diversos entrevistados. O filme conta com depoimentos de personalidades como Alcione, Luis Lobianco e o padre Fábio de Melo, que conta o episódio de quando a conheceu, em que ela quebrou os preconceitos que ele mesmo tinha.
“Nunca tive a pretensão de ser, e nem quero ser santa, mas as pessoas sempre quiseram me tratar como cidadã de segunda categoria [...] Nunca fui uma pessoa anormal, eu sou normalíssima”, alfineta Luana em uma de suas últimas participações no documentário, que prova, entre outras coisas, que ela era não apenas uma pessoa normalíssima, mas que também teve uma trajetória marcante, entre, dores, alegrias, paetês e consciência de seu papel social.
