Nunca houve uma mulher como Ema e essa não é uma mera boutade cinematográfica, parafraseando o que se dizia de Gilda, o clássico de 1946 de Charles Vidor. Mariana di Girólamo, que interpreta a protagonista do filme de Pablo Larraín, não é nenhuma Rita Hayworth mas certamente atualiza o caráter transgressor da personagem nas vidas que atravessa.
O termo “incendiária”, aqui, não é um mero eufemismo. Ema, literalmente, incendeia semáforos e outros equipamentos urbanos de Valparaíso, um de seus atos extremos de rebeldia. Ela não funciona de maneira convencional em nenhum sentido e isso a mergulha numa via própria, em que ela vai expressando um fogoso turbilhão interior do qual ninguém que por ela passa sairá ileso.
Ema é bailarina e muitos desses seus sentimentos à flor da pele escapam em seu trabalho e também nas ruas, onde ela se dedica ao popular reggaeton - este, um estilo em total conflito com o trabalho coreografado por seu marido, Gastón (Gael García Bernal).
Parte dos incêndios na tela decorrem das ruínas deste casamento tumultuado, que sofreu um corte radical depois que o casal devolveu o filho adotado, Polo (Cristián Suárez). Eles não eram pais convencionais para o menino de 7 anos, que acabou causando ferimentos com fogo na irmã de Ema.
São extremadas as cenas em que este casal em pedaços se acusa mutuamente pelos problemas do filho e os próprios, traduzidas na tela com o habitual rigor que o diretor chileno imprime a seus filmes. No entanto, na história de Ema, ele parece inspirar-se na falta de controle que sua protagonista imprime à própria vida, às vidas daqueles com quem se relaciona e também ao próprio filme. Ema arma suas teias e não é fácil ler o que lhe vai pelo íntimo. Seu pensamento é sua ação e sua ação está num corpo que ela empunha como um desafio.
Se o filme tarda um pouco a apresentar o menino Polo, centro de tanta discussão, este é mais um recurso habilmente utilizado também para esconder os planos de Ema - cuja figura expressa um tipo muito peculiar de maternidade. Nem sempre é fácil, ou mesmo possível simpatizar com esta jovem apaixonada e radical - muitos adjetivos lhe caberiam e cairiam por terra em seguida. Ema é paradoxal e Pablo Larraín correu riscos junto com esta sua musa anticonvencional, que nasceu para desafinar o coro dos contentes e para despertar paixões que não deixarão intocados aqueles a quem arrastar.
O roteiro, assinado por Larraín, Guillermo Calderón e Alejandro Moreno, de alguma forma perde o rumo neste ser feminino de hoje, das ruas, desafiando fronteiras sexuais e morais sem sucumbir à culpa. Ema carrega muito em si e os homens à sua volta, como Gastón, não a acompanham. Seduzem-se por esse corpo livre e disponível, e não só para os homens, e não compreendem que é ela quem está dando as cartas e sendo a primeira a queimar-se nas próprias chamas - e a sobreviver de suas próprias cinzas.
