05/07/2026
Drama

O processo do desejo

Sandra é uma estudante em visita, com seus colegas da faculdade, ao museu Castelo Farnese. Mas ela se perde dos outros e fica trancada no museu depois de seu fechamento. Pouco depois, descobre que tem a companhia de um homem, o arquiteto Lorenzo. Os dois manterão relações sexuais. Mas, no dia seguinte, ela o acusa de abuso e estupro.

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Marco Bellocchio, 81 anos, é um dos últimos grandes diretores italianos remanescentes de uma época de ouro do cinema de seu país, em que brilharam os talentos de Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Ettore Scola, Bernardo Bertolucci e tantos outros. Independentemente dos prêmios e da consagração obtida por uma trajetória iniciada por De Punhos Cerrados (1965), sua obra percorreu grandes temas, nunca se esquivando da polêmica - como no recente A Bela que Dorme (2012), em que discutiu o direito à eutanásia.
 
Pode-se acusar Bellocchio de tudo, menos da falta de vontade de correr riscos. E um dos momentos em que o diretor mais se arriscou em toda sua vida foi quando realizou O Processo do Desejo, vencedor do Prêmio Especial do Júri em Berlim 1991. O prêmio pode ocultar, à primeira vista, a aceitação sempre dividida, problemática, em torno do que este filme desconfortável procura dizer.
 
A história original, assinada por Bellocchio e seu psicanalista, Massimo Fagioli, explora os meandros do desejo na relação entre um arquiteto, Lorenzo Colaianni (Vittorio Mezzogiorno), e uma estudante, Sandra Celestini (Claire Nebout). Sua ligação, a rigor, é fortuita: os dois se conheceram numa noite em que ambos ficaram trancados dentro de um museu, o Castelo Farnese, depois de seu fechamento. As razões para a situação nunca são muito claras, deixando abertas as possibilidades de intencionalidade de cada um. Fato é que ambos terminam por manter relações sexuais e, no dia seguinte, a moça acusa Lorenzo de estupro e o caso vai a juízo.
 
Nesta discussão sobre a responsabilidade de cada um na expressão de seu desejo e nos constrangimentos causados ou não por ele, o filme abre um leque imenso de probabilidades, que trai sem dúvida a origem psicanalítica da história. Há vários sinais, deixados ao longo do caminho, de que Sandra pode ter-se deixado ficar de propósito no museu após o expediente - ainda que não se possa imaginar que soubesse que Lorenzo também ali estava. E o fato de que ele visivelmente se mostrou capaz de manipular os sentimentos da moça, escondendo dela o fato de que tinha chaves para sair, soma tempero à polêmica.
 
Não é, com certeza, uma narrativa 100% realista, como sempre acontece nas obras de Bellocchio. Há muitas ambiguidades e sugestões ao longo do caminho, que pretendem incendiar a controvérsia, não amainá-la, perfurando as camadas nem sempre harmônicas do que compõe a natureza humana. Soma-se ao conflito central a história, em paralelo, do desequilíbrio sexual do promotor do caso, Giovanni (Andrzej Seweryn), e sua mulher, Monica (Grazyna Szapolowska), que manifestam outros padrões na angustiante busca do prazer. Outras sequências, como a que envolve o promotor e uma misteriosa e sensual cigana (Maria Schneider) somam outras sensações à temática central.
 
Visto 30 anos depois de sua realização, o filme mostra algumas limitações diante do contexto atual, em que a sensibilidade feminina se expressa, possivelmente, com mais força e vigor. Pode-se mesmo enxergar no desenrolar da história alguns traços de machismo, em seu retrato das mulheres sempre como um elemento inapreensível.
Certamente, seu discurso é bastante intelectualizado e complexo, de forma alguma banal. Mas a maneira como as situações se desenrolam parecem um pouco datadas, vistas na perspectiva de hoje. Alguns filmes envelhecem pior do que outros, mas é de se louvar a ambição de frequentar espaços onde muitos não têm a coragem de ir. 
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