Estreia na direção da produtora Lisa Joy (da série Westworld), Caminhos da Memória envereda por vários gêneros, ficção científica, distopia, ação e romance, a partir de um pressuposto bem interessante - a possibilidade de vivenciar novamente as próprias lembranças.
Este inusitado serviço é o que oferece Nick Bannister (Hugh Jackman), com sua assistente, Watts (Thandiwe Newton), no cenário de uma Miami do futuro, em boa parte alagada, após uma guerra devastadora. Nick e Watts, aliás, são ex-combatentes.
A experiência é conduzida numa cabine, meio coberta também pela água (como um útero materno, quem sabe), onde o cliente é acomodado e preparado. Seguindo a voz de Bannister, que funciona como um hipnotizador (na verdade, uma injeção induz a reação), pessoas revivem as emoções de seus melhores dias, num tempo em que parece não haver futuro à vista. As águas reclamam mais e mais bairros da cidade e os ricos se encastelaram no seu bunker, na parte mais protegida.
A aparição de uma cliente misteriosa, Mae (Rebecca Ferguson), altera a rotina do lugar, e não só porque ela chega no fim do expediente. Mae torna-se rapidamente uma obsessão para Nick, que mergulha de cabeça nessa paixão estonteante, desprezando os conselhos prudentes de Watts.
A elegância visual do filme - fotografia de Paul Cameron - nos conduz nesse universo ambíguo, em que as lembranças dos clientes são materializadas em projeções holográficas, que tanto Nick quanto Watts podem ver. Mas a realidade é que não se pode acreditar em tudo o que se vê, mesmo que lembranças do passado pareçam imunes a manipulações.
Mae desaparece um dia e Nick, ao procurar saber seu paradeiro, envolve-se em caminhos cada vez mais perigosos do submundo, o que proporciona ao filme a oportunidade de oferecer algumas de suas mais sofisticadas sequências de ação - como um incrível tiroteio num bar, onde há um aquário com enguias; e uma luta feroz em que os dois contendores estão submersos.
Cunhada de Christopher Nolan, Lisa mostra uma disposição à la Kathryn Bigelow de comandar um espetáculo de ação que em geral os homens costumam comandar, credenciando-se entre as diretoras atuais capazes de dar conta do recado, sem esquecer de uma nota romântica forte.
No elenco, Hugh Jackman mostra-se à vontade ao habitar simultaneamente o posto de herói de ação e herói romântico, compondo um personagem de complexidade marcante. Rebecca Ferguson desliza magneticamente na tela como a mulher fatal de plantão. E Thandiwe Newton funciona muito bem como uma mulher dura, amarga, mas super-confiável quando o caso é disparar seu revólver, especialmente se a sobrevivência ou a lealdade estão em jogo.
