05/07/2026
Drama

A Candidata Perfeita

Filha de um músico, Maryam Alsafan cresceu num ambiente arejado, que permitiu a ela e suas irmãs sofrerem menos restrições, sendo mulheres numa Arábia Saudita cheia de regras e leis que as limitam. Maryam é médica numa clínica e luta para que a rua onde se situa seja asfaltada. E acaba tornando-se candidata numa eleição municipal, levando-a a enfrentar preconceitos muito arraigados.

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Cineasta pioneira numa Arábia Saudita que continua a ser um dos países com maior discriminação às mulheres do mundo, Haifaa Al Mansour prossegue, em A Candidata Perfeita, uma filmografia que reflete questões femininas importantes. Tal como havia feito em seu longa anterior, O Sonho de Wadjda (2012), que retratava o singelo anseio de uma menina de andar de bicicleta, proibido naquele país, a diretora e roteirista compõe uma nova história retratando dificuldades cotidianas na vida das mulheres sauditas, que parecem inimagináveis a realidades ocidentais, apesar do machismo que por cá também se manifesta.
 
A protagonista é Maryam Alsafan (Mila Alzahrani), jovem médica que trabalha numa clínica afastada do centro em sua cidade. Ela já desfruta de uma vantagem recentemente conquistada na Arábia Saudita, dirigindo sozinha o próprio carro - até 2018, isso era proibido por lei no reino. Maryam tem a sorte de vir de uma família de artistas. Seu pai, o viúvo Adbulaziz (Khalid Abduraheem), é músico e dá bastante liberdade às três filhas, incluindo a fotógrafa Selma (Dhay) e a caçula, a adolescente Sara (Nourah Alawad). Tanto que as deixa tranquilamente sozinhas quando decide partir numa turnê.
 
Acontece que o mundo lá fora continua cheio de obstáculos bem reais para a emancipada Maryam e a diretora acerta quando decide tornar sua história um pequeno painel de uma sociedade profundamente conservadora e retrógrada. Como quando revela um cotidiano em que homens e mulheres se divertem em separado, tendo que obedecer uma série de normas e leis. Ou a própria situação de sua protagonista, que não consegue viajar porque, para isso, mulheres precisam de uma licença de seu guardião, no caso o pai, e ela venceu enquanto ele está fora. 
 
Mesmo no trabalho, a presença da moça enfrenta resistências de alguns pacientes, como o velho Abu Musa (Hamad Almuzainy), que dá escândalo ao entrar no hospital para não ser atendido por uma mulher. Outros homens também a tratam com um misto de condescendência e piedade, como se ela fosse apenas uma criança.
 
O filme, no entanto, é justamente sobre a jornada dessa moça para arranhar a superfície dessa realidade secular, petrificada, até correndo alguns riscos. Ela decide tornar-se candidata a secretária municipal em sua região - o que parece equivaler à nossa vereança -, desafiando o machismo bem estabelecido. Sua plataforma é simples: asfaltar a rua onde fica a sua clínica, cujo lamaçal permanente dificulta o acesso ao local. Mas, mesmo quando se dirige às mulheres, Maryam nem sempre é bem compreendida.
 
Embora a jornada de Maryam seja até certo ponto didaticamente colocada, a diretora não se esquiva de injetar algumas complexidades na figura da heroína e sua família. São saborosas algumas sequências, como a ida da médica-candidata a uma entrevista de TV em que o apresentador tenta falar de jardinagem como um suposto interesse feminino. Uma trama paralela aborda questões, como a ameaça de extremistas às apresentações dos músicos como seu pai, outra trincheira que a diretora mostra querer afrontar. 
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